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Gonçalo Palma e Paulo Rico

Viagem à Arábia Saudita: do café ao oud

today 13 de junho de 2018

Por trás da fortuna bilionária proporcionada pelo petróleo, a Arábia Saudita vive num regime proibitivo, sob os mandos da Sharia, que não permite o futebol feminino, o consumo de álcool e muito menos a liberdade sexual. O regresso da seleção masculina de futebol do país a um Mundial 12 anos depois é uma da alegrias no reino sunita.    

Futebol atual

A qualificação para o Mundial foi conquistada com Van Marwijk como treinador. A presença na Rússia será com Pizzi no banco e pelo meio, Edgardo Bauza foi o técnico que, praticamente, nem aqueceu o lugar. Três treinadores no espaço de um ano, numa altura em que o futebol saudita está feliz (ver vídeo) com o regresso a uma fase final de um Mundial doze anos depois. O passaporte para a Rússia foi alcançado com alguma surpresa, num grupo que tinha Austrália e Japão, deixando os cangurus fora da zona de qualificação direta e com obrigação de jogarem dois play-off até chegarem ao Mundial.

Nem com esse apuramento (a apenas um ponto do Japão), o holandês Bert Van Marwijk conseguir perservar o lugar, recaindo a escolha técnica no argentino Edgardo Bauza. El Paton deixou o lugar quase com a mesma velocidade com que chegou ao futebol saudita, aguentando apenas cinco jogos... particulares (duas derrotas, uma delas com Portugal por 3-0)! O eleito para assumir a quinta presença da Arábia Saudita num Mundial foi o argentino Juan Antonio Pizzi, que não conseguiu qualificar o Chile na zona sul-americana, ainda que no currículo tenha uma Copa América conquistada ao serviço de La Roja. Em campo, a grande figura (única) é o avançado Sahlawi, marcador de 16 golos nas eliminatórias!

 

 

Proibido mulheres no futebol
Ou quase. As pessoas do sexo feminino passaram a poder assistir a jogos de futebol em três estádios este ano, num país que é 23 vezes maior que o território português e três vezes mais populoso que o nosso. Se para assistir, há já opções (embora muito poucas), para as mulheres jogarem futebol, é mesmo impossível. Não há nenhuma competição oficial feminina, nem tão pouco uma seleção feminina da Arábia Saudita.

O futebol é mesmo para homens - manda a lei árabe. E nesse campo a seleção masculina do país dos califas tem já alguns troféus de que se pode orgulhar, nomeadamente três títulos de campeão asiático. A nível de Mundiais, o êxtase aconteceu em 1994 com o golo de Al Owairan contra a Bélgica, num brilhante lance individual em que o atacante corre com a bola mais de metade do campo, driblando quatro adversários, aguentando uma carga faltosa e antecipando-se a um defesa e ao guardião Preud'homme com um remate fulminante para as redes. O golão, eleito com um dos melhores do século XX, valeu a única passagem da Arábia Saudita à segunda fase de um Mundial. Aquela era a estreia da seleção no maior evento futebolístico. As três participações seguintes em Mundiais foram bem mais secas, sem direito a qualificação para os oitavos-de-final e sem qualquer vitória.

O dinheiro do petróleo tem permitido à Arábia Saudita ser mais um importador que um exportador. A classe de treinadores portugueses, habituada às diásporas, que o diga. Já tivemos vários profissionais na liga árabe: Toni, Manuel José, Eurico Gomes, Toni Conceição, Mariano Barreto ou Jaime Pacheco, e até Vítor Pereira cuja passagem ficou marcada por uma polémica conferência de imprensa, na qual um moderador tentava filtrar o que devia dizer: "i speak the truth", respondia-lhe o treinador espinhense.

 


Proibido tocar música
Devido ao haraam (um dos cinco mandamentos islâmicos), os estúdios de gravação são proibidos e a música é condenada pelo sistema do país como um prazer pecaminoso. Quem quiser ser músico, tem que sair da Arábia Saudita. Tariq Abdul Haqim é um dos grandes da música do país: o multi-instrumentista é o autor do hino nacional. Outro dos gigantes e um dos cantores árabes com maior visibilidade no Médio Oriente é Mohammad Abdu, muitas vezes engalanado por acompanhamento orquestral e que se tem preocupado em manter viva a tradição musical oral do país.

Mas talvez a maior estrela da música seja mesmo um instrumento: o oud, muito semelhante ao alaúde. Os dedilhados virtuosos naquele lindíssimo objeto de madeira costumam colorir a reprimida música da Arábia Saudita.
 

 

Proibido comer porco e beber álcool
O regime islâmico austero do país não permite que se coma carne de porco ou que se consuma qualquer bebida alcoólica. Mas não é má educação comer com as mãos. E até é de boa educação comer-se sentado com o prato no chão, sem mesas.

De todos os pratos, o mais popular é o Kabsa, recheado de arroz, acompanhado de carnes (de preferência, de frango) e fortemente condimentado por especiarias, em especial o açafrão. A carne de borrego é muito requerida por um povo que até 2015 podia comer camelo.

A nível de bebidas, o café árabe tem muito boa fama. É demoradamente fervido num sumptuoso recipiente metálico, a que se junta cardamomo e açafrão.

 


Proibido votar
A Arábia Saudita pode ser o maior exportador de petróleo do mundo e ter alguns dos maiores bilionários mas é uma espécie de Estado Islâmico, só que com boas relações com o Ocidente. O regime legal saudita está amarrado à Sharia, com uma interpretação rigorosa dos mandamentos islâmicos que não difere assim tanto da visão social dos terroristas da ISIS.

No reino saudita, vive-se um sistema típico da época medieval, de monarquia absoluta. É o país do mundo onde mais pessoas são executadas em público, à pedrada ou decapitadas, sem julgamento prévio e sem hipóteses de defesa - o comportamento homossexual e o adultério podem levar à pena de morte. Ao invés, o homicídio é normalmente visto como uma disputa pessoal que pode escapar a um julgamento penal. A Arábia Saudita era até ao ano passado o único país onde as mulheres eram proibidas de conduzir. E os cinemas são proibidos por causa da escuridão da sala que pode levar à perversão sexual.

Esta potência sunita é também conhecidas pelos seus enormes desertos e pelas peregrinações em massa do mundo muçulmano às cidades sagradas do Islão: Meca (a grande peregrinação anual do Hajj) e Medina.

 

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