(Cortesia promoção da Businessgolf)

AUTOR

Gonçalo Palma

Valéria Carvalho: do porto do Rio aos Portos do Rui

today 29 de fevereiro de 2020

Não foi Rui Veloso a levar Valéria Carvalho "ao concerto que havia no Rivoli" (citando a letra da sua canção 'Anel de Rubi') mas foi a atriz mineira a levar esta noite o rocker português ao concerto que havia no Tivoli. Rui Veloso sentou-se na segunda fila a ver o espetáculo de Valéria Carvalho, assente no seu único disco "Rui em Jeito de Bossa", que esteve a ser gravado para futura edição em DVD.
 
Este concerto no centro de Lisboa foi uma espécie de autobiografia cantada de Valéria Carvalho sobre os seus 29 anos de vivência em Portugal, resumidos em 90 minutos, pedindo emprestadas as palavras de Carlos Tê e as notas de Rui Veloso. Depois de tudo tratado em estúdio no tal  "Rui em Jeito de Bossa”, Valéria Carvalho carimbou agora em palco a dupla nacionalidade às canções de Rui Veloso, no seu transplante para os ritmos suaves do bossa nova, como quem adapta uma tripas à moda do Porto com feijão preto (em vez de branco) e farinha mandioca.
 
No Tivoli, 'Porto Covo' passou a ter vista para o Pão de Açúcar e não para a ilha do Pessegueiro, graças à embarcação em mares calmos de Valéria Carvalho, com Lula Galvão na guitarra clássica, Jorge Hélder no contrabaixo e Armando Marçal na percussão. Valéria Carvalho tratava do violão. Juntos, faziam a banda sonora do bem bom do Rio de Janeiro, a música que Tom Jobim e João Gilberto inventaram junto às praias cariocas em 1958-59.  Mas o gostozinho suave no lotadíssimo Tivoli foi para adocicar as músicas graníticas de Rui Veloso, onde na Foz do 'Porto Sentido' passou a caber o imenso areal da Praia de Copacabana.
 
Valéria Carvalho usava um vestido alva, num palco decorado por velinhas. Fez vários discursos emocionados sobre Portugal. Recordou, por exemplo, a chegada ao Porto e o conselho maternal de uma senhora para que vestisse o casaco por causa do frio. Foi pingando citações de letras de Carlos Tê em cada memória.
 
Desbravou as várias músicas de Rui Veloso... não fez outra coisa. Começou em 'Todo O Tempo Do Mundo', fez a 'Jura' e, bem mais adiante atirou-se ao 'Fado Pessoano'. Pelo meio, trouxe convidados, como a sua "madrinha musical" Mafalda Veiga, para o 'Primeiro Beijo'. Contou com Edu Miranda que fez uma longa intro no bandolim para 'Porto Sentido'. E, por fim, chamou Rui Veloso que com a guitarra afinada nos blues, tocou A Ilha.
 
Nos encores, Valéria Carvalho voltou aos seus portos seguros, Porto Sentido (desta vez com a voz de Rui Veloso ao leme) e Porto Covo, num processo de verticalização, com a cantora cada vez mais solta e dançarina, a conseguir levar o público a levantar-se de pé nos festivos minutos finais. "Amo vocês", desabafou, no final, Valéria Carvalho.