ASSOCIATED PRESS

AUTOR

Margarida Gonçalves

EUA: os "Presidentes vitalícios"

today 14 de janeiro de 2021

Nos EUA, deixar o cargo de presidente não significa deixar de representar o país e servir a nação. Os antigos presidentes continuam ligados à máquina administrativa e são por vezes chamados para cumprirem o papel de ?embaixadores?, em algumas circunstâncias. 

Na passagem pela Casa Branca, o trabalho desenvolvido durante os mandatos confere aos antigos presidentes prestígio nacional e internacional. Todos optam por continuar um trabalho político de retaguarda e tomam voz activa sempre que as circunstâncias obrigam.

Por lei, os ex-presidentes vivos têm direito a uma pensão, um gabinete e uma equipa própria. A proteção dos serviços secretos também se mantém até ao fim da vida. 

Os EUA têm hoje 4 ex-presidentes. Todos com trabalho relevante no pós-presidência, todos são vozes respeitadas na política norte-americana. Todos escreveram biografias em contratos milionários com as editoras. Nos livros explicam as escolhas feitas na presidência e dão as suas versões da história dos mandatos.

Jimmy Carter (1977-1981)

Com 96 anos, é o mais velho dos antigos presidentes e, possivelmente, o que tem o legado mais importante no pós-presidência. 

Depois da derrota nas eleições de 1980 (ganhas por Ronald Reagan), Jimmy Carter regressou à sua Geórgia natal, onde criou o Carter Center para promover a luta pelos direitos humanos e a busca de soluções pacíficas e democráticas para conflitos internacionais. O antigo presidente participou em negociações de paz em vários países e foi observador internacional nas primeiras eleições democráticas de países saídos de ditaduras. 

O trabalho em prol da paz e direitos humanos valeu a Jimmy Carter o Prémio Nobel da Paz em 2002. 

Depois de sobreviver a um cancro em 2015, Carter tem tido vários problemas de saúde que o obrigam a estar resguardado em tempo de pandemia. Por essa razão, vai estar ausente da tomada de posse de Joe Biden mas mantém-se presente, como aconteceu depois do ataque ao Capitólio, no dia 6 de Janeiro. Como todos os ex-presidentes, Carter condenou a ação dos terroristas, classificou os acontecimentos de ?tragédia nacional? e recordou a sua experiência como observador internacional em eleições em novas democracias para afirmar: ?Tenho a certeza que nós, o povo, podemos unir-nos para nos afastarmos deste precipício e pacificamente fazer cumprir as leis do nosso país, e temos que o fazer?.

 

Bill Clinton (1993-2001)

Depois de uma presidência marcada por um escândalo sexual, Bill Clinton salvou o casamento e a reputação. 

Fechada a porta da Casa Branca, dividiu-se entre o trabalho político e o humanitário. 

Clinton continuou o trabalho no Partido Democrata e apoiou a mulher na sua carreira política. Depois de ser primeira-dama, Hillary Clinton ocupou o cargo de Secretária de Estado na Administração Obama, foi senadora e candidata democrata à presidência em 2016 (perdeu para Donald Trump).

Paralelamente à atividade política, Bill Clinton criou a Fundação Clinton que atua em áreas como saúde pública, combate à pobreza e conflitos étnicos e religiosos. O ex-presidente trabalhou com as Nações Unidas na coordenação dos esforços humanitários para apoio às populações depois dos sismos na Ásia em 2004. No seu próprio país, colaborou com o também ex-presidente George W. Bush na angariação de fundos para apoiar as vítimas do furacão Katrina, que atingiu a Costa Sul dos EUA em 2005. Os desastres naturais que têm vitimado comunidades nos Estados Unidos juntaram todos os ex-presidentes vivos em 2017. Jimmy Carter, George H. W. Bush, Bill Clinton, George W. Bush e Barack Obama trabalharam juntos na organização sem fins lucrativos One America Appeal para ajudar as vítimas dos furacões Harvey e Irma.

Desde 2004, Bill Clinton tem sofrido vários problemas de saúde e passou por várias hospitalizações. A pandemia obrigou, por isso, a uma presença mais discreta na campanha para as presidenciais de 2020. Ainda assim, Clinton discursou na convenção do Partido Democrata e apoiou a candidatura de Joe Biden e Kamala Harris. 

Foi também voz ativa para condenar a invasão ao Capitólio, no dia em que foram confirmados os resultados eleitorais. Clinton, que é um feroz crítico de Donald Trump, não poupou nas palavras e afirmou que "o ataque foi alimentado por mais de quatro anos de uma política venenosa que espalhou desinformação deliberadamente, semeou a desconfiança no nosso sistema e colocou os americanos uns contra os outros?. 

Bill Clinton pediu ainda que se cumpra ?a transferência pacífica do poder que determina a Constituição" e vai estar presente na tomada de posse de Joe Biden no dia 20 de Janeiro. 

 

George W. Bush (2001-2009)

Depois de uma presidência que foi considerada, por muitos analistas, como uma das piores, George W. Bush é o mais discreto dos ex-presidentes. 

Terminada a missão em Washington, regressou ao Texas e vive em Dallas. Voltou ao palco mediático para ajudar nos esforços de apoio às vítimas dos desastres naturais nos EUA e no estrangeiro. Participou em várias iniciativas, muitas com os restantes antigos presidentes. 

Em 2013 inaugurou o Centro Presidencial George W. Bush, que alberga um museu e uma biblioteca. No tempo livre dedica-se ao hobbie da pintura e até fez uma exposição, em 2014, com as suas obras que retratam desde paisagens a pessoas, incluindo líderes mundiais, como Vladimir Putin e Tony Blair.

Na política, apoiou o candidato republicano nas eleições de 2012, Mitt Romney, mas recusou fazê-lo em 2016 quando o partido apoiou Donald Trump. Bush não votou no republicano mas compareceu à tomada de posse do ainda presidente e desejou sucesso no mandato.

Nos últimos quatro anos manteve a postura discreta mas depois do ataque ao Capitólio fez uma declaração pública onde confessou estar ?chocado com o comportamento imprudente de alguns líderes políticos desde as eleições e com a falta de respeito demonstrado hoje pelas nossas instituições, tradições e cumprimento da lei.? Bush, conhecido por usar expressões caricatas, afirmou que "é assim que os resultados das eleições são disputados numa república das bananas - não na nossa república democrática".

No dia 20 de Janeiro, George W. Bush e a mulher, Laura, vão estar presentes na tomada de posse de Joe Biden.

 

Barack Obama (2009-2017)

Depois de uma transição pacífica de poder para o sucessor, Donald Trump, Barack Obama e a família mudaram-se para uma casa em Washington onde vivem atualmente. Obama foi o primeiro presidente em quase 100 anos a continuar a viver em Washington depois de terminado o mandato. A decisão prendeu-se com a continuidade dos estudos da filha mais nova dos Obama, Sasha, na escola que já frequentava. 

O casal Michelle e Barack Obama tem assinado contratos milionários para a publicação de biografias e para a realização de filmes e séries sobre eles.

Nos primeiros anos pós presidência, Obama manteve-se discreto, mesmo perante os ataques de Trump, mas as políticas do republicano fizeram com que o primeiro presidente negro dos EUA quebrasse a tradição de não criticar publicamente os sucessores e Barack Obama voltou ao palco político. Nas eleições intercalares (para eleger representantes locais) em 2018, Obama afirmou que Trump é ?uma ameaça para a democracia?. 

Foi um dos protagonistas dessa campanha dos Democratas, celebrou as vitórias conseguidas e teve papel predominante na campanha presidencial de Joe Biden, seu vice-presidente. 

Indignado pelo ataque ao Capitólio quando os resultados eleitorais iam ser confirmados, afirmou que "A história vai lembrar corretamente a violência de hoje no Capitólio, incitada por um presidente em exercício que continuou a mentir sem fundamento sobre o resultado de uma eleição legal, como um momento de grande desonra e vergonha para nossa nação. Mas nós estaríamos a enganarmo-nos a nós próprios se disséssemos que isto é uma surpresa".

No futuro, Obama deve manter-se como um dos mais próximos conselheiros do presidente eleito, Joe Biden.

 

 

Donald Trump entra para a lista de ex-presidentes dos EUA no dia 20 de janeiro, mas com a pretensão de voltar a ocupar o cargo. Essa é só uma das muitas incógnitas que rodeiam o futuro político (e não só) de Trump que enfrenta um impeachment, o segundo do mandato, que pode ter importantes consequências numa putativa candidatura em 2024 e até na posição de ex-presidente.