30 julho 2021
06:55
Gonçalo Palma

Dez álbuns perdidos

DR
Sai hoje "Welcome 2 America" de Prince, um desses álbuns que estavam perdidos.

O bicho criativo do sobredotado Prince levava-o a uma abundância de canções e ao luxo de deixar álbuns prontos na gaveta. Estima-se que oito mil canções deste génio desmedido estejam por publicar. 
 
Em 2010, seis anos antes de morrer, Prince foi para a uma digressão europeia com um álbum que nunca saiu. Esse disco chama-se "Welcome 2 America" e é hoje lançado. Este lançamento leva-nos a fazer um levantamento de dez álbuns perdidos ao longo da história da música... começando pelo referido álbum de Prince.

Prince - "Welcome 2 America" (gravado em 2010 e lançado em 2021) 
As fitas de gravação estavam fechadas no grande cofre do seu complexo caseiro de estúdios de Paisley Park. Esse espaço misterioso onde está depositada uma grande quantidade de canções por publicar de Prince é o chamado The Vault. O álbum tem uma marca muito política, com uma mensagem social muito crítica para com a América neo-liberal e desigual, viciada na futilidade televisiva. Gravado no rescaldo da grande crise económica de 2008, "Welcome 2 America" é só publicado hoje, um ano depois do movimento Black Lives Matters, motivado pela morte por sufocamento de George Floyd. 

 

Beach Boys - "Smile" (gravado entre 1966 e 1971; editado em em 2004 e 2011) 
O compositor dos Beach Boys, Beach Boys, entrou uma concorrência criativa com os Beatles, numa dimensão sinfónica do rock que tem como obra significativa o álbum de 1966, "Pet Sounds". Brian Wilson torna-se o Beach Boy recluso que evita o palco e se concentra na criação e gravação. Cria uma equipa de estúdio, a Wrecking Crew, enquanto os restantes Beach Boys tocavam pelo mundo fora. É no rescaldo do álbum "Pet Sounds" e na sequência do tema à solta 'Good Vibrations' que Brian Wilson entra num processo de perfeccionismo para o álbum seguinte, "Smile". Colam-se fragmentos, encaixam-se camadas e camadas instrumentais e obtém-se a megalomania polifónica, sempre com o arranjador Van Dike Parks por perto. Mas Brian Wilson perde-se no seu perfeccionismo obsessivo. O mundo ficaria a conhecer a sua grande amostra, 'Good Vibrations', mas o álbum sumiu-se. Só foi capturado neste século em dois formatos: o disco "Brian Wilson Presents Smile" (lançado em 2004) e a caixa "The Smile Sessions" (publicado em 2011). 

 

Marvin Gaye - "You're the Man" (gravado em 1972 e publicado em 2019) 
'You're the Man' esteve para ser o álbum sucessor da obra-prima "What?s Going On", seguindo a mesma linha de consciência política e social que Marvin Gaye passou a adotar na sua carreira, depois dos êxitos optimistas dos anos 60. Mas o tom crítico contra o Presidente norte-americano Richard Nixon não foi do agrado do patrão da Motown, Barry Gordy, preocupado em não desagradar a base de fãs mais conservadores. Ao sentir falta de apoio promocional ao single que dá título ao álbum, 'You're the Man', Marvin Gaye cancelou a edição do disco. As canções do álbum foram sendo publicadas de forma dispersa em anos subsequentes. O álbum esteve engavetado durante 47 anos.

 

José Afonso e Francisco Fanhais - "República" (gravado em 1975)
É o álbum gravado de Zeca Afonso que ainda não teve lançamento em Portugal. Foi feito em dois dias, em modo ao vivo em Itália, a meias entre Zeca e Francisco Fanhais. Os dois músicos nacionais aceitaram o desafio de três organizações de esquerda italianas para fazer o disco, cujas receitas reverteriam para o jornal República, que dá o título ao disco. Apenas 100 exemplares chegaram a Portugal à época do lançamento em Itália.  

 

Amália Rodrigues - "Segredo" (gravado entre 1965 e 1975, lançado em 1997)
Na verdade, não é um álbum perdido, mas sim uma compilação de gravações perdidas. O técnico de som de muitas décadas de Amália, Hugo Ribeiro, foi silenciosamente desobedecendo às ordens da fadista para apagar certas gravações e foi colecionando com paciência as que considerava as melhores prestações que a cantora desaproveitava. Um dia, já nos anos 90, Hugo Ribeiro mostrou essas gravações ao editor Rui Valentim de Carvalho e a Amália Rodrigues. É dessas gravações que se faz este álbum colossal.


My Bloody Valentine - "m b v" (gravado entre 1996 e 1997 e entre 2006 e 2012 e lançado em 2013) 
Tal como aconteceu com Brian Wilson dos Beach Boys no álbum ?Smile?, também Kevin Shields dos My Bloody Valentine entrou num bloqueio perfeccionista para o terceiro álbum da banda shoegazer, tornando-se esse disco uma imensa impossibilidade. O processo demorado de gravação do álbum dos My Bloody Valentine provocou várias rupturas. A editora Creation cortou com a banda, que se separou em 1997, deixando a meio os trabalhos para o difícil sucessor do aclamado álbum ?Loveless?. Quando os My Bloody Valentine se reagruparam em 2006, a banda recupera e aperfeiçoa essas canções deixadas para trás e acrescenta-lhe ainda outras novas, embora de uma forma muito morosa. Quando o famigerado álbum da banda é finalmente publicado em 2013, parecia mentira. 

 

Death - "...For the Whole World to See" (gravado em 1975 e lançado em 2009) 
Antes do punk explodir, já havia uma banda punk a sério, os Death. Em 1975, gravam um álbum de sete canções com o título idealizado de ?...For the Whole World to See?. Mas o disco torna-se rejeitado pelas editoras. O nome Death desagradou aos executivos. A música foi também considerada demasiado veloz. A cor da pele daqueles três rockers afroamericanos causava estranheza. E onde tocavam, provocavam problemas com a vizinhança por causa do ruído. Os Death separaram-se em 1977 sem nenhum álbum editado. O dito álbum é lançado em 2009, 34 anos depois de ter sido gravado, e provocou a estupefação, incluindo de Jack White (ex-White Stripes). Era o som certo, o tempo é que se atrasou. 

 

Neil Young - "Hitchhiker" (gravado em 1976 e lançado em 2017)
Tal como Prince, Neil Young dá-se ao luxo de guardar anos a fio álbuns gravados por inteiro. O que deu mais falatório foi ?Hitchhiker?, cujas sobras foram aproveitadas sobretudo para metade do álbum de 1979 ?Rust Never Sleeps?. Outros temas desse álbum foram sendo lançados de forma avulsa. Só dois temas de ?Hitchhiker? se resguardaram no segredo dos estúdios 41 anos: 'Hawaii' e 'Give Me' Strength.


 

Prince ? "The Black Album" (gravado entre 1986 e 1987, lançado em 1994)
Um ano depois de ter deixado em pousio eterno o álbum "Camille", Prince cancela quase em cima hora o lançamento de "The Black Album", que estava a ser apresentado justamente como "a bíblia do funk". A viver o seu apogeu criativo, Prince deixou de lado esta obra transgressora por causa de uma desconfiança do artista de que seria um trabalho com forças malignas, depois de uma experiência pessoal estranha que vivera. Em 1994, o disco seria editado mas rapidamente descontinuado. As poucas cópias no mundo deste disco têm hoje um valor brutalmente alto no mercado da net. 

 

Misfits - "12 Hits from Hell" (gravado em 1980)
Esta dúzia de canções punk borbulhantes esteve para ser o álbum de estreia dos Misfits. Mas nunca seria editado. O poder de veto de alguém foi sempre o suficiente para impedir o seu lançamento. Em 2001, isso voltou a acontecer. "12 Hits from Hell" ainda hoje é um álbum perdido. Alguns dos poucos detentores das cópias promocionais tornaram-no acessível em plataformas como o YouTube. 


 

Mais Notícias