24 setembro 2021
11:00
Redação

Rita Redshoes: "a minha filha é a minha maior força e a minha maior fragilidade"

Vitorino Coragem
A cantora edita hoje "Lado Bom", disco que dedica à mãe e à filha Rosa.


Esta sexta-feira, Rita Redshoes lança o disco "Lado Bom", o quinto da discografia e o primeiro inteiramente em português. O novo álbum - o mais pessoal da cantora - chega em 2021 mas foi escrito e gravado entre 2018 e 2019. Quis o destino pandémico que "Lado Bom" estivesse algum tempo confinado, tal como estivemos nós, mas agora é de quem o quiser ouvir. O foco é a recente estreia da cantora na maternidade. Rita foi mãe da pequena Rosa em 2018. 
 
"À boleia da maternidade, exploro emoções desconhecidas, exponho dúvidas, muitos medos, certezas e incertezas, antigas e novas, que me permitem uma leitura diferente da vida e da minha existência", escreveu cantora sobre o disco. 

"São questões como o papel da mulher na sociedade, agora enquanto mãe, a qualidade dos afetos recebidos e a capacidade de os partilhar, a individualidade, o tempo ou a fragilidade presente na impossibilidade de controlar e proteger o que está fora de nós que definem a pulsação desta história. Umas vezes quebrada, muitas vezes inteira, eis-me (re)nascida como mãe e pessoa". 



Eis agora a conversa que tivemos com a Rita Redshoes:

Continuas a sonhar acordada?

Sempre. 

Sonhas com a mesma intensidade com que sonhavas quando eras mais nova?

Acho que quando somos crianças mantemos essa vertente [do sonho] muito acesa mas, com o passar dos anos, entramos num período em que já não é tanto assim. Agora, com a idade, voltei a ter essa sensação. A idade faz com que consigamos aproveitar mais os momentos e os dias. Ajuda-nos a ter a perceção de que sonhar e imaginar é algo muito importante para a nossa sanidade mental e para a nossa saúde física. 

Há pessoas que acreditam no poder da visualização. Acreditas nisso?

Temos o poder gigante da motivação que, no fundo, prende-se um pouco com isso. Falo da capacidade que temos para pensar e imaginar o que queremos. Em psicologia, usa-se [essa visualização] como ferramenta. Às vezes, para conseguirmos ultrapassar os nossos medos, é benéfico imaginarmo-nos a viver a situação que receamos para depois imaginarmo-nos a enfrentá-la. A mente pode ser treinada e tem o poder de chamar para nós o que queremos. Claro que, por vezes, a vida não ajuda e encarrega-se de "dizer" que não vale a pena.    

 


'Lado Bom' é um título que, à partida, nos transporta para um campo magnético positivo. Porquê este título?

O nome do disco foi escolhido antes da pandemia, mas, ainda assim, resolvi mantê-lo. Acho que aquilo que está a acontecer pode servir como um grande ensinamento. Podemos tirar uma série de lições disto. Nem tudo foi mau nesta experiência. Nada na vida é sempre mau ou é sempre bom. O título tem a ver com o meu processo de maternidade. Tem a ver com tudo o que esse processo tem de bom e com aquilo que tem de menos bom e não é tão falado. Acho importante falar desse lado menos positivo. A maternidade é uma estrada, um caminho de grande autoquestionamento e até de culpabilidade. Ao mesmo tempo, há uma luz que está sempre acesa e que nos guia nesse processo. Ser mãe pela primeira vez fez com que, de alguma forma, me sentisse renascida. Sou uma melhor versão de mim mesma. Esse é o lado bom.

A Rosa ensina-te muita coisa?

Ensina-me imenso. Imenso. Além daquilo que aprendo com ela, a maternidade transporta-nos para o nosso passado, para a nossa criancice. É precisamente por isso que dedico este disco à minha filha mas também à minha mãe. Só agora, enquanto mãe, é que consigo compreender melhor a minha mãe.  

O que é que já aprendeste com a tua filha?

A Rosa é a minha maior força e a minha maior fragilidade. Está tudo ali. Parece que fica tudo exposto. Com a maternidade, aprendi a ter alguma resiliência. Percebi que, afinal, não conseguimos controlar a maior parte das coisas que nos acontecem na vida. Aprendi que é muito importante ver a alegria que a Rosa sente no ato de cada descoberta. Um exemplo disso foi quando a minha filha sentiu o vento pela primeira vez. Foi uma excitação, uma alegria. Aprendo com as perguntas que ela me faz como, "o sol vai almoçar?" ou então, sol tem boca?". Esses detalhes e essa imaginação são muito importantes. A alegria de ver as coisas pela primeira vez é tão bonita. Nós, os adultos, esquecemo-nos tantas vezes de fazer esse exercício.  

Mas a Rosa sai à mãe, certo? Tu conservas o lado poético dessa descoberta ou redescoberta constante... 

Tenho um amigo que me costuma dizer: "tu vais ser a eterna menina/mulher". Se calhar é por aí. Não só em no aspeto físico - parece que nesse aspeto nunca serei adulta - mas também na forma de ver a vida. É curioso. Esse meu amigo também me diz que, às vezes, pareço muito velha. (risos)

Maturidade emocional, talvez?

Sim. Ele acha que sou muito sensata. Por norma, a sensatez está associada às pessoas mais velhas...

És uma alma velha, então.

Eu digo ao meu amigo que sou uma chata. (risos) Mas depois tenho esse outro lado - o lado de ainda gostar de ficar surpreendida com a vida e com as pessoas. Acho que isso requer alguma ingenuidade. Temos de estar de peito aberto para que aconteça.  

Por vezes, não é tentador fechá-lo?

É um ato de fé manter o peito aberto.
 


O amor salva. E salva em todas as situações, até nas mais duras e agressivas. Um ato de amor salva. O que dá sentido à vida é sentir que somos amados e saber que somos importantes, nem que seja apenas para uma pessoa ou para o nosso cão. Isso é amor.


Escreveste a canção 'Rosa Flor' para a tua filha antes de saberes que ias ter uma menina. Isso é maravilhoso... 

Sim. Quando escrevi essa canção estava grávida de poucas semanas. Não sabia se ia ter um menino ou uma menina.

E escolheste logo o nome Rosa?

Eu sabia que era a Rosa. Havia qualquer coisa em mim que me dizia que era a Rosa. 


Temos estado a falar das alegrias mas, para haver um lado bom, também há um lado mau. Esse lado menos bom também está no disco?

Sim. Falo desse lado em várias faixas do álbum. Acho que é muito importante falarmos sobre isso. Ainda existem muitos tabus - quer para as mulheres, quer para os homens - que devem ser falados. Há uma grande culpabilidade socialmente imposta à mulher e ao papel de mãe. Primeiro, é logo suposto que a mulher seja mãe. Depois, tudo tem de correr bem na maternidade. A mulher tem de saber logo cuidar da criança, tem de haver um amor incondicional imediato. Acho que não é bem assim. É uma construção. Além disso, uma mulher não tem de ser mãe. É uma decisão totalmente livre e tem de vir da vontade. É importante que se queira muito ser mãe. Eu, por exemplo, tive uma depressão pós-parto, algo que é muito comum, mas não é muito falado. O primeiro mês de maternidade foi muito duro. Foi uma fase muito complexa. Também é importante dizer que há ajuda para estas situações. Há sítios onde se pode ter a ajuda completa, com enfermeiras, psiquiatras, psicólogos e terapeutas de bebés. Há ajuda disponível.   

E procuraste ajuda...

Sim. Procurei ajuda. Tive a consciência de que estava a precisar de ajuda. A privação de sono, a responsabilidade de sentir que está ali um ser que é completamente dependente de ti e que a sua sobrevivência depende dos humanos que estão à sua volta - tudo isto é muito pesado. 
 

Entregaste a letra de duas canções ao Samuel Úria ('Canção Canora') e ao Pedro da Silva Martins ('O Amor Não é Razão'). O Camané canta contigo o tema 'Contigo é Pra Perder', o Eduardo Raon toca harpa, o Mikkel Solnado e o Left assinam a produção. Porquê este elenco?

Queria fazer uma mistura entre uma sonoridade mais eletrónica e a harpa. Há algum tempo que quero incluir a harpa nos meus discos. Tive a sorte de, desta vez, ter a presença da harpa e de levá-la para os concertos. É um instrumento que cria muito entusiasmo no público. A harpa também tem um lado muito aquático. É um instrumento que acaba por fazer todo o sentido, tendo em conta que o disco anda à volta da maternidade e do mergulho que é ser mãe. O Mikkel e o Left acederam ao pedido e fizeram a produção com esse intuito. Apesar de incluir a harpa, não deixei para trás os instrumentos que me são mais característicos, como é o caso das guitarras elétricas, das cordas ou dos teclados. Acho que conseguimos criar uma sonoridade muito específica, que condiz muito bem com a lírica do álbum. Penso que fiz as escolhas certas, com as pessoas certas. A equipa esteve sempre unida e entendeu muito bem aquilo que eu andava à procura.