25 setembro 2021
08:26
Agência Lusa

Francisco George recomenda vacinação de crianças se for comprovada eficácia

LUSA
O médico especialista em saúde pública Francisco George considera ainda que o mundo falhou na preparação de pandemias como a covid-19.

As crianças maiores de cinco anos devem ser vacinadas contra a covid-19, desde que a segurança e a eficácia da vacina estejam comprovadas cientificamente nestas idades, defende o médico especialista em saúde pública Francisco George.

A vacinação das crianças está a ser a discutida e analisada, tendo a Pfizer já anunciado que a sua vacina contra a covid-19 é eficaz em crianças dos 5 aos 11 anos e que vai requerer autorização nos Estados Unidos para este grupo em breve.

Em entrevista à Lusa, o ex-diretor-geral da Saúde Francisco George não vê entraves na vacinação deste grupo etário, desde que as vacinas “tenham uma base de comprovação científica, da sua segurança e do resultado positivo”.

“Se as coortes estudadas por epidemiologistas perceberem que as crianças são fontes de transmissão do vírus, da infeção, e que precisam de ser protegidas, e se tivermos a certeza da segurança da vacina, não vejo porque não”, diz em entrevista à agência Lusa na sede da Cruz Vermelha Portuguesa, instituição a que preside, no Palácio da Rocha do Conde D’Óbidos, em Lisboa.

Em Portugal, as crianças são vacinadas desde a nascença até à entrada no ensino secundário, observa o médico que durante 12 anos foi diretor-geral da Saúde, cargo que deixou em 20 de outubro de 2017, na véspera de completar 70 anos, pondo fim a uma carreira de 44 anos ao serviço da Função Pública.

Então, questiona: “Se há reforço para as outras vacinas, e se há vacinação de crianças com menos de 5 anos para outras doenças, porque é que não há de haver também para estas?”.

Quanto à terceira dose da vacina, defende que a sua necessidade é ditada pelo nível de anticorpos produzidos pelas vacinas anteriores e que a decisão terá de ser tomada com base científica.

“Não são as opiniões, sobretudo de comentadores, que devem ser ouvidas em termos dos comentários que formulam, que são livres, que são justos, que são legítimos, mas não tem base científica”, declara.

Portanto, sustenta, “não há aqui nenhuma opinião a não ser aquela que é baseada na demonstração de que o número de doses anteriores [da vacina] tenha protegido o cidadão, a sua família, a comunidade, através da medição em laboratório dos anticorpos que circulam no soro”.

O médico de saúde pública Francisco George considera ainda que o mundo falhou na preparação de pandemias como a covid-19, ainda que alertado por outras doenças emergentes desde há 40 anos.

Diretor-geral da Saúde entre 2005 e 2017, Francisco George acha estranho que não se tivesse admitido que podiam surgir novas doenças e não houvesse uma preparação para elas, à luz de outros coronavirus neste século (Sars logo no início do século e depois, em 2012, o Mers).

Mas Francisco George vai mais atrás, recua a 1980, lembra o aparecimento da sida, também uma doença que até então não existia.

“O que é estranho neste processo é que muitos governos, muitos governantes, muitos médicos, muitos cidadãos, não tenham compreendido o fenómeno de 1980 com o aparecimento de um novo vírus, de uma nova doença que até então não tinha existido”, diz.

Um ano antes, em 1979, ninguém admitia que novas doenças pudessem surgir, as faculdades não ensinavam aos seus estudantes cenários desta natureza, de novas epidemias. As lições, afirma, eram baseadas sobretudo no controle dos problemas, acabar com doenças como se tinha feito com a varíola.

“Era o tempo do controle do paludismo. Era o tempo do controle do sarampo, que também foi eliminado, do controlo e eliminação da poliomielite. Eram esses os temas de estudo nas academias, e nunca o cenário de poder surgir uma questão nova”.

Mas surgiu. E nessa altura, em 1980, as autoridades académicas e os governos foram alertados para a necessidade de reforçar as unidades de saúde pública. Mas Francisco George é perentório: em Portugal, apesar dos “sucessivos alertas”, até internacionais, as unidades de saúde pública “nunca foram motivo de atenção”.

“Muitas vezes os programas eleitorais falavam do reforço da saúde pública, mas depois na prática não havia reforço”, diz, considerando que um dia é preciso olhar para trás “com duas lupas”, uma política e outra científica, e ver o que aconteceu desde 1980.

É preciso ver, considera, as promessas e os porquês do não cumprimento dessas promessas em termos de saúde pública, como é preciso um olhar de base científica para perceber os erros que terão sido cometidos.

“Um deles podemos já adiantar, a saúde pública e as suas infraestruturas, as suas estruturas, foram surpreendidas com, digamos, a força deste furacão” que foi a covid-19.

Por isso, defende, é preciso dar atenção aos equipamentos de saúde pública, ao seu pessoal, e reforçar a defesa do país até em termos de segurança nacional, através do reforço das unidades de saúde pública.

“Sempre foi uma luta, que considero que a nível pessoal terei feito, mas provavelmente não terei feito o melhor, porque se tivesse feito melhor o resultado teria sido outro”, reconhece.

Em Portugal, resume, faltou atenção à saúde pública, e ainda que tivessem existido anúncios “não houve desenvolvimento daquilo que tinha sido anunciado para reformar a saúde pública a nível nacional”.

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