31 outubro 2021
09:18
Redação / Agência Lusa

COP26: Histórico das questões ambientais em Portugal, espera da cimeira do clima apenas "paliativos"

EPA/NIC BOTHMA
Confessa-se assustado, não pelo planeta, mas pelos seres que nele vivem, nomeadamente um dos mais frágeis, o Homem, que é o causador da aceleração das mudanças do clima.

O antigo governante português ligado ao ambiente Carlos Pimenta diz não esperar grandes resultados da cimeira do clima que hoje começa em Glasgow, Escócia, mas considera ser obrigação da União Europeia (UE) apresentar medidas duras e inovadoras.

“Não estou à espera de resultados, estou à espera de paliativos”, disse Carlos Pimenta, histórico das questões ambientais em Portugal, em entrevista à Lusa a propósito da 26.ª Conferência das Partes da Convenção das Nações Unidas sobre Alterações Climáticas (COP26) que vai decorrer em Glasgow entre hoje e 12 de novembro e da qual se esperam medidas de combate ao aquecimento global e de adaptação às alterações climáticas.

Cético em relação ao resultado global, Carlos Pimenta é no entanto mais exigente quanto à UE, bloco do qual se exigem medidas duras, seja dentro do território seja em relação a produtos que compra a países terceiros, seja em relação ao sistema financeiro, para não financiar mais investimentos com alta pegada carbónica.

Para Carlos Pimenta, é obrigação da UE, qualquer que seja o resultado da COP26, tomar medidas precursoras da mudança global, "porque sem elas o mundo caminha para a catástrofe”.

Antigo secretário de Estado do Ambiente, deputado na Assembleia da República, eurodeputado e muitos anos porta-voz do Parlamento Europeu para o clima, Carlos Pimenta garante que é real o bom trabalho que a UE tem feito na luta contra as alterações climáticas.

Mas, na entrevista à lusa confessa-se assustado, não pelo planeta, mas pelos seres que nele vivem, nomeadamente um dos mais frágeis, o Homem, que é o causador da aceleração das mudanças do clima.

Licenciado em engenharia química, Carlos Pimenta salienta que as leis da física e da natureza não se violam, que o clima resulta da distribuição da energia que chega do sol na interação com vários sistemas, que a Terra é um equilíbrio dinâmico, como o é também o corpo humano.

“Na engenharia sabemos que um sistema em equilíbrio, se levado a um extremo, passa por um momento catastrófico até chegar a outro equilíbrio. A queda de uma ponte é esse momento, o monte de pedras no rio é o novo equilíbrio. Mas coitados dos que viajavam na ponte quando ela caiu”.

Carlos Pimenta usa o exemplo da ponte para explicar que a ação do Homem na Terra está a alterar o equilíbrio do planeta, cuja capacidade de ajustamento tem limites, e em algum momento, que não se sabe quando nem quanto tempo dura, vai procurar outro equilíbrio. “E nós estamos todos sobre a ponte”.

E não se pense, adianta, que as alterações que os seres humanos provocam na Terra são só ao nível das emissões de gases com efeito de estufa provenientes da queima de combustíveis fósseis. Carlos Pimenta fala também dos resíduos, da destruição dos ecossistemas e da natureza em geral.

O planeta já passou por cinco situações assim, reequilibrou-se, a vida na Terra esteve à beira da extinção cinco vezes, lembra, acrescentando que “isto já aconteceu tantas vezes e é tão estudado que não há desculpas para a ignorância”.

Em vez de aprender com a História o que fez a humanidade? Carlos Pimenta responde que em pouco mais de 100 anos queimou o carbono que fora fixado nos últimos 100 milhões de anos, e vê agora a Sibéria com 35 graus, a Gronelândia com 23, referindo que “a quantidade de gelo que saiu num único dia da Gronelândia daria para cobrir a Florida (Estados Unidos) toda com três centímetros de água”, um furacão e chuvas torrenciais na Sicília (Itália), enxurradas na Alemanha, no Luxemburgo ou na Bélgica.

“O regime transitório aproxima-se e há um momento em que já não é possível voltar ao período anterior. Há um momento em que o equilíbrio muda, e é imprevisível”, alerta Carlos Pimenta.

“Vamos ter ventos muito fortes, que podem ser pontuais, ter fenómenos de precipitação extrema, também localizados, é a adaptação do sistema natural. Mas vai chegar o momento em que o desequilíbrio não se manifesta por fenómenos localizados.”

Vai então ser a altura, vaticina, das tempestades de ficção científica, da desertificação, da morte em larga escala dos oceanos.

“A ciência não sabe quando começam estas disrupções globais, as pontuais já começaram. Se a corrente do golfo (do México) recua posso ter 800 anos de gelo na Europa”, diz o especialista, retomando o exemplo da ponte para concluir que “os cientistas não conseguem dizer quando é que a ponte cai, e quando isso acontecer a vida adapta-se. Mas o Homem não, pelo menos este Homem não”.

Por tudo isto, diz Carlos Pimenta, a COP26 é uma “tentativa desesperada dos cientistas”, porque eles nunca foram como agora tão claros sobre as consequências da ação dos seres humanos no clima, ainda que não saibam quando começa um novo equilíbrio, nem que fenómenos catastróficos acarreta, nem quanto tempo durarão.

Mas o problema de fundo é como alterar o modelo e o estilo de vida. Um estilo que, nas palavras do antigo secretário de Estado, permite que em cada ano oito a 10 mil milhões de peças de roupa vão para aterros sem chegarem sequer a ser usadas. Que permite que se produzam quantidades assustadoras de metano nas agropecuárias para alimentar o consumo de carne.

“Algum dia vai ser preciso dizer às pessoas que se não cortarem dramaticamente na carne não há planeta. E quem é que vai dizer isto? Isto que nem sequer é nada de novo, que o Parlamento Europeu já alertava nos anos 90”, afirma.

Para já, acrescenta, as economias continuam no pressuposto de que se podem usar os recursos de forma ilimitada, que a atmosfera tem uma capacidade ilimitada e os oceanos também, mas "esses pressupostos são falsos”, diz Carlos Pimenta, considerando que ainda assim, na COP26 os países vão tentar manter tudo na mesma, ignorando que não se pode continuar a consumir combustíveis fósseis como até agora, a desperdiçar um terço dos alimentos produzidos, a construir habitações que são sorvedouros de energia, a conduzir automóveis como hoje se vê.

Carlos Pimenta faz uma pausa, fala dos automóveis de novo, e como se estivesse apenas a pensar alto diz que num carro normal a eficiência não é mais de 15%.

"Em 20 litros de gasolina que compro uso quatro, os outros é calor do motor e fumo do tubo de escape. Tenho um equipamento que pesa uma tonelada e meia e gasta o que gasta para transportar 70 quilos de gente. Como é que o planeta aguenta?", questiona.

Por tudo isto, defende Carlos Pimenta, é preciso que os governos, que têm a informação, ajam, e que as pessoas exijam que, pelo menos nos países democráticos, se tomem decisões, porque essa é a obrigação de qualquer governo.

E não só na luta contra as alterações climáticas. É preciso agir na adaptação aos novos tempos. Carlos Pimenta cita até exemplos do que está a ser feito em vários países europeus, dos grandes investimentos na adaptação. "Não em Portugal, que em Portugal 'é mais Fátima'”, diz ironizando com o que parece ser a espera por um milagre.

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