24 novembro 2021
07:00
Redação

Mortes de músicos ligadas à sida

Marco Arndt/Laurent Rebours (Associated Press)
Freddie Mercury morreu há 30 anos. O vocalista dos Queen foi a vítima mais mediática da "doença do século XX" no mundo da música.

O mundo vive há dois anos angustiado com o drama pandémico da covid-19. Mas há um vírus que ainda não desapareceu, a sida. Os seus efeitos atuais não são tão avassaladores e céleres, à medida que a medicina foi aprendendo tratar esta terrível doença. Antes, nos anos 80 e 90, a sida tinha um selo de morte. Uma das mortes mais choradas na música foi a de Freddie Mercury, dos Queen, cujo coração bateu pela última vez há 30 anos, a 24 de novembro de 1991.  
 
Lembramos ainda mais outras nove mortes de figuras musicais atribuídas a complicações com a sida. 
 
Freddie Mercury 
Em 1987, o vocalista dos Queen conhece o diagnóstico como seropositivo de HIV. Desde então, o segredo foi sendo guardado até à véspera da sua morte, quando anunciou ao mundo através de comunicado que contraíra a fatal doença. Os dois últimos álbuns dos Queen, "Miracle" (de 1989) e "Innuendo" (de 1991), não tinham merecido qualquer promoção ao vivo, o que causou estranheza. Mas é o vídeo de 'These Are the Days of Our Lives' que lança o alarme e alimenta especulações sobre o estado de saúde de Freddie Mercury, visivelmente emagrecido e com ar fragilizado. O vídeo foi rodado a 30 de maio de 1991, a pouco menos seis meses da morte do cantor, a 24 de novembro de 1991.    
 


 
António Variações 
É o primeiro caso conhecido de um óbito ligado à sida em Portugal. A causa da morte, em 1984, atribuída à sida é noticiada pouco tempo depois da sua morte pela imprensa - embora alguns elementos da sua família liguem apenas o falecimento à pneumonia diagnosticada ao cantor. António Variações gravou o seu segundo álbum, "Dar & Receber", já em dificuldades. O cansaço, uma febre reincidente e manchas na pele denunciavam algum vírus estranho que Variações achara ter apanhado numa das suas viagens transcontinentais. Os Heróis do Mar, com quem António Variações gravou o seu disco final, ainda lhe mostraram a capa, com o artista minhoto já hospitalizado e muito debilitado. O álbum "Dar & Receber" seria lançado nesse fatídico ano de 1984. 
 


 
Cazuza 
A sua luta pela sobrevivência à sida tornou-se pública, quando decidiu assumir que era seropositivo de HIV em 1989, ano e meio antes de falecer. Os sinais de decadência física e de transfiguração de rosto denunciavam há algum tempo um problema de saúde mais grave. Mesmo durante a doença, Cazuza nunca parou de gravar, atuar e até de evoluir. O berrador blues-rocker dos tempos dos Barão Vermelho (a sua banda até 1985) foi-se tornando num cantor de bossa nova. Já de cadeira de rodas, conseguiu ainda gravar o álbum "Burguesia" (de 1989) e deixar material suficiente para o disco póstumo "Por Aí" (de 1991). 
 

 
 
Renato Russo 
O carismático vocalista dos Legião Urbana é outro dos grandes ícones do rock brasileiro que a sida abateu. A juntar à dependência de heroína e ao alcoolismo, Russo tornou-se também seropositivo de HIV, e a sua vida complicou-se ainda mais. A sensação de estar na recta final da vida lança Renato Russo para autênticas maratonas de estúdio durante o ano de 1996, que se saldam em dois álbuns ainda mais melancólicos, "A Tempestade ou O Livro dos Dias" e o disco póstumo "Uma Outra Estação". Renato Russo grava já estava bastante debilitado três dezenas de canções. O cantor morre de sida a 11 de Outubro de 1996, 
 

 
  
Ofra Haza 
É uma das maiores cantores de sempre do Médio Oriente, muito ligada à tradição musical hebraica, com uma projeção internacional assinalável, quer pelo 2º lugar no Festival da Eurovisão de 1983 (em representação de Israel), quer por colaborações com nomes da pop e do rock (como Michael Jackson, os Sisters of Mercy ou Iggy Pop), quer pela participação em algumas bandas sonoras de filmes de Hollywood. Mas o mundo ficou a conhecê-la mais com o seu êxito de 1988, 'Im Nin'alu'. Nada dada a excessos, a sua morte prematura aos 42 anos surpreendeu, sobretudo a causa, ligada à infecção da sida.  
 


 
Fela Kuti 
Mais excessivo era sem dúvida outro astro da música do mundo, Fela Kuti, conhecido como o rei do afrobeat. Negacionista da sida, o artista nigeriano pagou caro o preço de um comportamento mais permeável numa zona do globo com altas taxas de sida. Enquanto infetado, foi recusando vários tratamentos, até a sua debilitação se tornar irremediável. A sua morte em 1997 comoveu a Nigéria, onde era visto como um herói.  
  


 
Eazy-E (dos NWA) 
A tragédia mortal da sida também se abateu sobre uma figura de proa do hip hop como o rapper Easy-E. Quando o ex-MC dos NWA toma conhecimento de que era seropositivo, já o seu estado de saúde estava bastante grave. Um mês depois morre, a 26 de março de 1995, quando tinha apenas 30 anos de idade. O seu falecimento foi um aviso: a sida também atacava no gueto, como em Compton (às portas de Los Angeles). 
 

 
   
Ricky Wilson (guitarrista dos B-52’s) 
A sua forma de afinação da guitarra elétrica deu uma peculiaridade especial ao som festivo dos B-52's. Ele foi um motor criativo para a banda. Mas Ricky Wilson tornar-se-ia também conhecido como um dos primeiros músicos com notoriedade a falecer de sida, em 1985. O músico foi diagnosticado com o HIV ainda em 1983, quando a sida era uma doença nova. A última vez que subiria a palco foi na edição de estreia do Rock in Rio, em 1985, onde os B-52’s deram dois concertos, em janeiro. Seis meses mais tarde, quando os B-52’s vão para estúdio para gravar o seu quarto álbum, "Bouncing Off the Satellites", membros da banda foram reparando que Ricky Wilson estava muito mais magro, mas só o baterista Keith Strickland sabia que o guitarrista estava infetado com HIV. Ainda antes do álbum ser concluído, Ricky Wilson morre a 12 de outubro de 1985, com apenas 32 anos.   
 


  
Arthur Russell 
Arthur Russel, um dos maiores experimentalistas do século passado, era um autêntico bicho-do-mato, como era Nick Drake noutra geografia musical bem diferente. Tal como Nick Drake no campo, Arthur Russell isolou-se mas no meio de uma floresta de arranha-céus chamada Nova Iorque. O diagnóstico como seropositivo de sida e o cancro na garganta levaram-no a refugiar-se ainda mais na composição de música. Em 1992, Arthur Russell morreu enfraquecido pela sida, quando tinha apenas 40 anos de idade. Depois da sua morte, foram-se descobrindo e catalogando quase mil cassetes de gravações de Arthur Russell, com temas com dezenas de versões diferentes. 
 

 
 
Liberace 
Foi um dos pianistas mais populares em todo o mundo, tendo-se destacando pela forma excêntrica com que espalhava os dedos pelos teclados do piano. Foi excêntrico nas suas vidas profissional e pessoal, mas guardou em segredo a infecção do HIV. Só se soube que Liberace tinha sida após a divulgação da autópsia, o que gerou polémica, incluindo com os médicos que zelaram pelo secretismo da doença de Liberace.   
 
 


 

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