27 janeiro 2022
09:32
Gonçalo Palma

O álbum que afamou Lana Del Rey faz dez anos

DR - capa do álbum Born To Die
"Born To Die" fez cintilar uma nova personagem cinematográfica.

Saiu há precisamente dez anos, a 27 de janeiro de 2012, o álbum “Born To Die” que abriu caminho estrelado para a nova personagem de então, Lana Del Rey. A cantora norte-americana tem hoje um reportório fortíssimo que faz dela uma das artistas mais produtivas e influentes dos últimos dez anos. Nesse espaço de tempo, publicou sete álbuns, quase um por ano, o que é uma média considerável para a indústria atual. 
 
O seu primeiro nome musical foi Lizzy Grant. Elizabeth Woolridge Grant nasceu em Nova Iorque em 1985. Quando começou a cantar em palco, era apenas uma jovem bonita de ar descuidado, com aquele magnetismo ingénuo que anunciava um imenso potencial.  
 
Quando se converteu em Lana Del Rey, reencarnou numa personagem glamourosa, musicalmente mais sofisticada e com a aparência de muitas das personagens dos filmes de David Lynch. 


  
O borburinho à volta dos singles 'Blue Jeans' e 'Video Games' prepararam o sucesso para o álbum de 2012 “Born To Die” que faz de Lana Del Rey uma nova estrela. A sua música fazia também o jogo de ilusões da sua imagem. O recorte clássico das canções era apenas aparente, havia ali um universo próprio que ondulava entre o hyped pop e o hip pop, uma espécie de gangsta-pop. 

 

Lana Del Rey era em 2012 uma donzela desconcertante que carregava tudo à flor da pele: o olhar perdido e nervoso e no mesmo segundo o dom da sedução, sobretudo quando a música começava. É nesse ano de 2012 que reedita o álbum "Born to Die", com o acréscimo do EP "Paradise". 
 
Nesta deriva musical pelo asfalto, Lana Del Rey assume-se cada vez mais como a nova diva da América com bolinha no canto do ecrã. Canta corajosamente numa linguagem sexual mais gráfica que nunca perde de vista o charme hollywoodesco. Esta filha espiritual de Elvis Presley e Marilyn Monroe é uma Barbie rebelde, com vários escapismos tornados canções.  

 

Lana Del Rey, quando apareceu, dividiu muitas opiniões, mas o tempo foi-lhe dando razão. Logo em 2012, o álbum "Born To Die" foi uma golpada de trunfos que desarmou quem desconfiava do seu valor. E quando se apresentou pela primeira vez em Portugal, no festival Super Bock Super Rock de 2012, Lana Del Rey convenceu todos, mesmo os céticos.  

Lana Del Rey vingou com uma sensualidade de movimentos cinematograficamente calculados: o tique de subir levemente a saia justa (para alegria gulosa de muito do expectante público), o puxar meigo do cabelo para a frente, a forma como se ajoelhou em palco, o cigarro que foi acendendo ou o beijo inesperado a um fã no corredor central da arena. A cantora levou o glamour de Hollywood ao Meco, com uma carnalidade e beleza que faziam (e fazem) dela uma figura irreal. O visual ajudou e não se reduziu aos lábios carnudos: dos sapatos de salto alto ao cabelo arranjando, passando por adereços vistosos como os anéis ou as várias pulseiras. Tudo era cuidado, sob a inspiração da Meca do Cinema. Com o auxílio de um quarteto de cordas e de mais dois músicos, o concerto de 45 minutos foi uma breve viagem pelo álbum "Born to Die", com versões orquestradas e cinematográficas, despidas da roupagem pop-rockeira. 

 

Colocou-se depois o problema da sucessão. Em 2014, Lana Del Rey lançou "Ultraviolence", um álbum que fugiu às apostas, negando-se como uma sequela de "Born To Die". Lana Del Rey escolheu o caminho mais difícil. Optou por um disco mais intimista e subtil, de canções menos flagrantes que tinham feito a sua imagem em temas como 'Video Games' ou 'Ride'. 

No álbum “Ultraviolence”, Lana Del Rey não se contenta com o mero revivalismo das cantoras de jazz de Hollywood, sabendo embrenhar-se com um charme misterioso. Lana Del Rey canta swingante como uma Peggy Lee. O seu canto fantasmagórico evapora-se em ecos, enquanto imaginamos uma mulher bonita e arranjada, mas de alma perdida. 

 

Lana Del Rey é uma diva no melhor sentido do termo. Tal como Amália Rodrigues, Lana Del Rey tem o poder de atrair os melhores compositores e os melhores músicos, para um conceito que pertence à cantora. 
 
Quando o álbum “Ultraviolence” foi produzido por Dan Auerbach, foi o líder dos Black Keys que teve que se adaptar ao mundo bem pessoal de Lana Del Rey e não o contrário. Uma das poucas canções deste álbum de 2014 que fugiu à sua produção foi a canção 'Pretty When You Cry', que Lana Del Rey cantou muitas vezes em palco deitada, como uma Cinderela dramática, que ergue as emoções nos momentos certos.   

 

Quando Lana Del Rey lançou em 2015 o quarto álbum “Honeymoon”,  parecia estar cada vez mais a esconder-se dos êxitos. A cantora aprofundou a linha intimista do antecessor “Ultraviolence” no álbum “Honeymoon”, fechando-se ainda mais na concha.  
 
Nessa concha, não se ouvia apenas o mar do Pacífico. Lá cabiam as palmeiras apenas fotografáveis a preto e branco, o percurso pela marginal em melancólico slow motion ou os vidros da limusina tão fumados quanto esfumada a alegria da bela Lana Del Rey.  
 
A personagem feminina está de lua-de-mel, mas sem marido; o quarto é duplo, mas o champanhe, servido fresco, vai ter que ser bebido solitariamente para esquecer tudo. O entrelaçamento será quanto muito entre dois estranhos, que serão sempre estranhos, numa evasão demasiado breve da infelicidade incontornável. O que Lana Del Rey não descobre com a felicidade, fá-lo com as grandes canções. 

 

Não percebemos onde acaba a pessoa Lizzy Grant e começa a personagem de Lana Del Rey. A fronteira está indefinida, sempre em favor da ambiguidade que se deseja, o tal mistério. O que não é ambígua é a consistência da música de Lana Del Rey, com a largura do mapa da América do Norte ou da grande tela do cinema e com a infinitude da estrada americana.  
 
Quando Lana Del Rey se tornou famosa, muita da imprensa desconfiou desta princesa rebelde, difícil de decifrar. Mas em 2019 as coisas eram bem diferentes, com o consenso da crítica à volta do álbum “Norman Fucking Rockwell!”, que coleccionou distinções nas listas de melhores discos do ano, da Pitchfork ao Washington Post, do Guardian à estação pública americana NPR. 


O reportório da artista californiana está cada vez mais imponente. Só no ano passado, lançou dois álbuns, o mais folk "Chemtrails over the Country Club" e "Blue Banisters", com arranjos mais glamourosos. Lana Del Rey assume-se cada vez mais uma diva indie cortejada pelas suas próprias sombras. Manda-nos a todos nós os seus postais da sua Los Angeles, cujo verso são frases lacrimejantes, mais tristes e bonitas que a imagem da frente do cartão. Com uma voz de ser frágil, Del Rey serpenteia cada vez melhor em vários contornos, com aquelas mudanças de respiração cinematográficas, às vezes para um tom falado final mais dramático, como uma femme fatale aturdida. 


 

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