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23 junho 2022
14:14
Gonçalo Palma

Arnaldo Antunes: "transito tanto entre géneros musicais, como entre linguagens"

Silvia Izquierdo (Associated Press)
Entrevista ao músico e poeta paulistano, num hotel de Lisboa.

O membros dos Tribalistas, Arnaldo Antunes, esteve em Portugal este mês para uma mini-digressão. Depois do concerto no festival Primavera Sound, no Porto, em formato elétrico e com banda, Arnaldo Antunes apresentou o seu espetáculo intimista "Lágrimas no Mar" em Serpa, Coimbra e Lisboa. A acompanhá-lo esteve apenas o jovem pianista brasileiro Vitor Araújo.

A hibridez sempre fez parte do percurso de Arnaldo Antunes (músico, poeta e artista) e é uma palavra que gosta particularmente de usar nesta entrevista que lhe fizemos, num hotel lisboeta.

Já vens há muitos anos a Portugal? Consegues lembrar-te de todas as vezes que vieste cá? 
Já vim muitas vezes a Lisboa, ao Porto e a muitas outras cidades. Viseu, Braga. Lembro-me de nos anos 80 ter vindo cá ainda com os Titãs, fizemos uma turné tocando junto com os Xutos & Pontapés.Tenho muitos amigos em Portugal. Sou parceiro há muito tempo dos Clã: a Manuela Azevedo, o Hélder Gonçalves e a banda toda. Já participei em festivais, já editei aqui um livro. É um dos públicos mais calorosos da Europa. 

Qual a foi a impressão mais forte que sentiste do país na primeira vez em que vieste com os Titãs? 
Éramos muito novos, não conheciamos muito bem Portugal. Lembro-me de ter ficado muito surpreso, quando achei Lisboa muito parecida com Salvador [da Bahia], que é uma cidade do Brasil que amo. Ficámos encantados. Foi muito giro ter viajado com os Xutos. Mas a surpresa mais gratificante foi o público caloroso. Continuo a sentir isso quando venho a Portugal. 

 

Colaboraste com portugueses como os Clã e a Carminho. Essas experiências muito diferentes provam o teu lado multifacetado, não é? 
Não sei como é aqui, mas essa mistura de géneros, esse trânsito entre uma música e outra, é muito natural no Brasil. É uma condição natural da nossa cultura, essa hibridez. Vimos de uma cultura mestiça, que viveu depois da antropofagia [do "Manifesto Antropófago"] de Oswald de Andrade e do Tropicalismo, com um território livre. Eu acabo a transitar não só entre géneros musicais, como de linguagens, porque faço também poesia, artes visuais, poemas visuais, vídeos, a poesia escrita, a poesia cantada... Adoro vários músicos de Portugal, como a Carminho, que é uma querida parceira nossa recente, o Sérgio Godinho, o António Zambujo, a Maria João, os fados mais antigos. Admiro muito. 


Este show "Lágrimas no Mar", com o Vitor [Araújo], é um formato inédito para mim, em que sou acompanhado ao piano. Há também outra novidade: ou faço concertos ou performances de poesia. Neste show, estou alternando entre poesia e canções. O Victor fez alguns arranjos para os poemas também. Esse show faz um híbrido, em que junto duas coisas que fazia separadamente. Fiz um show no Primavera Sound do Porto, com banda e tal, que é diferente deste que estou a apresentar.

 

Também és versátil na escrita das letras. Tanto podes cantar sobre o amor, como sobre política, ou ter um ângulo mais surrealista. 
Tenho uma canção em que digo: "somos o que somos, inclassificáveis" [da música 'Inclassificáveis']. Quero ser livre e capaz de atuar em todos os contextos. Somos assim naturalmente. Não falamos com o guarda da esquina da mesma maneira como falamos com a nossa mãe, que não é a mesma maneira como falamos com a nossa namorada, que não é a mesma maneira como falamos com o porteiro do prédio. Temos discursos que se adequam a determinados contextos. Dentro disso tudo, há características que prezo na minha expressão, seja em que contexto for: a clareza de linguagem, a capacidade de síntese, o lado lúdico de se brincar a linguagem como se fosse um jogo, dizer ao máximo aquilo que se quer expressar, a aplicação da palavra à coisa. Claro que há um sotaque que se identifica como sendo do Arnaldo.

 

Dez anos nos Titãs mudaram-te em que sentido? 
Foi uma escola de palco, de enfrentar o público, de atuar, de ser um performer de palco, de cantar competindo com o resto da banda e uma aprendizagem em fazer arranjos de canções com os amigos. Foi uma escola e estou muito grato a ela.  

Surpreendeu-te o sucesso que os Tribalistas tiveram? 
Não esperávamos. Foi surpreendente para nós mesmos. Fizemos [as coisas] sem grandes expetativas do que iria acontecer. Foi um sucesso maior do que todos nós esperávamos.

 

Consideras-te um sonhador? 
Sim, acho que é importantíssimo sonhar, para nos alimentar dentro da realidade. 

Preocupa-te a desflorestação da Amazónia? É razão para nos preocuparmos? 
Não é só para nos preocuparmos. É para nos revoltar, nos indignar e nos [fazer] manifestar. Fiquei tristíssimo com as mortes do Bruno [Pereira] e do Dom [Phillips] e explicita o que o governo vem fazendo com a Amazónia, em relação ao meio ambiente e aos indígenas. Acho importante que o mundo veja o que está acontecendo no Brasil, que é de uma brutalidade enorme. O sentimento é uma desolação muito grande. Só esperamos livrarmo-nos deste governo o quanto antes. Esperamos que nas eleições de outubro, haja essa mudança, porque há demasiada destruição e retrocesso nas questões ambientais, mas também na educação, na cultura, na saúde pública, nos direitos humanos, nos direitos civis, nos direitos laborais. Esperamos poder superar este período sombrio da nossa história. 

Acreditas que o governo vai mudar?
Acho que sim, creio que grande parte da população anseia por isso.   


 

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