11 dezembro 2019
09:28
Gonçalo Palma

Dez grandes discos nacionais da década

Obras dos Clã, Ana Moura, B Fachada ou Capicua entre os enaltecidos.

Este é o penúltimo balanço musical da década - os demais pode consultar na grelha de notícias relacionadas. Desde que o fado rejuvenesceu nos anos 90 que tem mantido a frescura, com um atestado de saúde nesta década bastante recomendável e visível nesta lista. Há também um disco pensado para as crianças, outro capturado pelas mesmas, e ainda intimismos, ritmos afro-eletrónicos e um volume de rock traquinas. Esta seleção é, evidentemente, subjetiva.
  
Clã - "Disco Voador" (2011)
Os Clã já eram campeões do lançamento do disco mas em 2011 este disco, enfeitiçado pela magia das letras de Regina Guimarães, saiu para fora da esfera habitual e foi parar ao mundo das crianças. Com o motor bem oleado desde os anos 90, os Clã já se estavam a tornar uma banda transgeracional mas, de repente, o público da banda do Porto esticou para a camada gaiata. Em Disco Voador, os Clã fazem trocadilhos e tentam encaixar palavras quase homófonas como quem brinca com legos. A bonecável cantora Manuela Azevedo adapta-se bem a este mundo da plasticina, de sapatos de salto alto com penas, a saltar como quem sonha que pode voar. Disco Voador é um álbum infantil mas jamais infantilizado que os Clã, volta e meia, ainda vão tocando ao vivo.


 
Capitão Fausto - "Gazela" (2011)
Entre as poucas bandas rock nacionais fascinantes e de trabalho continuado ao longo desta década, contam-se os Linda Martini, os Diabo na Cruz e os Capitão Fausto. Destes últimos, já é muito difícil escolher um melhor álbum. O arranque com "Gazela" foi logo promissor com cinco rapazes traquinas, contaminados pelo imaginário psicadélico, a tornarem mais leve o prog-rock e a afofar o garage-rock. Nos reenquadramentos subsequentes, nunca perderam a graça.

 
Ana Moura - "Desfado" (2012)
Neste disco, a cantora ribatejana embarcou de vez o seu fado numa caravana multigéneros e numa formação reforçada com bateria e teclados, através da qual passou a viajar ainda mais pelo mundo do que já viajava. A fada que estava fadada para o fado também soube desfadar, com uma boa base de partida: um elenco de luxo de compositores tão variados como Pedro da Silva Martins dos Deolinda, Pedro Abrunhosa, Márcia ou Manel Cruz (dos Ornatos Violeta. Este fado híbrido tornou-se um marco e um inventivo para outros fadistas. 

B Fachada - "Criôlo" (2012)
B Fachada é das figuras do século que mais tem influenciado a música cantautoral do país. Ao longo da sua embriaguez criativa do final da década passada e do início desta, não parou de surpreender. Este EP, "Criôlo", é um dos seus trabalhos mais iluminados, verdadeiramente um disco a solo, executado sozinho, com as mãos nos sintetizadores e um pé com vontade de dançar. "Criôlo" é stand-up comedy com música afro-synth. 

 
Gisela João - "Gisela João" (2013)
É difícil encontrar um álbum de estreia tão aclamado em Portugal como o homónimo da fadista Gisela João, com uma voz quente a escaldar canções já bem arquitetadas pelos melhores do ofício. Antes deste álbum, a cantora de Barcelos era um segredo mal guardado no circuito das casas de fados. Durante o impacto crescente do disco, Gisela João conquistou as melhores salas do país. E então, os nervos só estiveram à vista nos intervalos entre as músicas. Mal se começava a tocar a guitarra portuguesa e a música arrancava, a voz não falhava.  

Capicua - "Sereia Louca" (2014)
A nossa grande Maria Capaz volta à dianteira da Guerrilha Cor-de-Rosa do hip hop, com crónicas em forma de rap ainda mais pertinentes. O olhar à sociedade portuguesa é transversal e feminista e conta ainda com a memória humorada da sua infância em 'Vayorken' que, em estilo de hip hop de old school, conquistou um público imprevisto: as crianças desta década.  

  
Camané - "Infinito Presente" (2015)
Numa década em que o fado continuou a rejuvenescer-se, Camané assegurou a continuidade do fado mais tradicional pelas melhores razões. Infinito Presente é talvez o seu álbum mais arrepiante, com a produção de José Mário Branco que, neste decénio, pôs o trabalho de Camané tão à sua frente que abdicou da discografia em seu nome individual. Foi por uma boa voz. 


Luís Severo - "Luís Severo" (2017)
Dos vários descendentes de B Fachada, Luís Severo sempre soou o mais interessante. Neste disco embevecido de romantismo, o cantor da Grande Lisboa já está num mundo muito seu. “Luís Severo”, com oito faixas de beleza inerente, é só pequeno de tamanho. E denuncia-nos uma tendência: Luís Severo é o maior cantautor da sua geração. 


Márcia - "Vai e Vem" (2018)
Márcia é dona de uma das melhores discografias desta década. Nunca parou de refinar o seu modo sussurrado e meigo de cantar, como se quisesse aportuguesar a bossa nova. Nessa melhoria constante, o seu último álbum foi sempre sendo o melhor. E o seu longo mais recente é Vai e Vem, logo...


Dino D'Santiago - "Mundu Nôbu" (2018)
Esta mestiçagem da África lusófona tradicional com as eletrónicas foi glorificada pelos Buraka Som Sistema, mas teve continuidade noutros discos, às vezes por intervenção dos seus ex-membros, como "Mundu Nôbu" - com apoio ativo de Kalaf. Este roteiro geo-musical vem da cabeça de Dino D’Santiago, e tem no coração Cabo Verde e a sua música – o funaná ou o batuque –, em acasalamento com o r&b e a eletrónica.    


Artigo de opinião.

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