29 março 2020
19:38
Redação

Noiserv: "no fim de tudo, seria bom perceber que o mundo afinal é demasiado dele e pouco nosso"

Vera Marmelo
Desafiámos o Noiserv a escrever sobre a atual situação que vivemos por causa da pandemia de Covid-19.

Hoje, 29 de Março, a hora mudou, e por isso acordei mais tarde do que me parecia.

Acordei como tenho acordado nos últimos dias, sem horas, sem prazos, sem objectivos, ligeiramente vazio, sempre cedo, mas hoje a hora mudou e pouca diferença fez.

Levantei-me e pensei o que iria fazer, é domingo, supostamente dia de descanso mesmo para quem, como eu, acaba por trabalhar muitas vezes ao fim de semana, mas a verdade é que pouca diferença fez.

Os dias perderam as horas, as horas perderam as semanas e são estes os tempos que vivemos e que nunca ninguém nos ensinou a viver, mas pouca diferença faz.

O futuro, sempre incerto, torna-se agora desesperadamente longínquo e acima de tudo indeciso. Dezanove dias passaram desde que me perdi neste sítio que se chama casa, pequena e solitária, e apertada demais nos dias em que o sol aparece, mas pouca diferença faz.

As poucas vezes em que tenho ido à rua, vejo máscaras ao invés de bocas, luvas e não dedos, mas acima de tudo vejo pouco e sempre gostei muito de ver muito. Os olhares estão diferentes, há medo em quase todos, deixámos de nos conhecer, ou pior, de querermos conhecer-nos.

Pela minha janela, enquanto não desço os olhos para baixo tudo parece normal, apenas o silêncio é um pouco mais barulhento que antes. Sinto falta de não ter lugar para estacionar, sinto falta de me irritar porque estou atrasado para chegar, sinto falta de dizer "a caminho", mas acima de tudo sinto falta de dizer que tenho falta de tempo, mas pouca diferença faz.

No fim de tudo, seria bom perceber que o mundo afinal é demasiado dele e pouco nosso, que pouco o controlamos e que devíamos vivê-lo melhor, mas talvez pouca diferença faça se não nos virmos tão cedo.

Noiserv
 

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