Márcia: "contem comigo para animar quem esteja desesperado"

Cantora lisboeta cita o "querido pai" no desafio que lhe propusemos de escrever sobre a situação provocada pela pandemia do covid-19.

"Por mais duro que seja o Inverno, na Primavera volta tudo a florir" 
Esta era uma frase do meu querido Pai. 
Escreveu-ma em tempos, quando eu vivi fora, numa das dezenas de cartas que me enviou. Foi uma altura muito dura para mim, mas muito frutuosa. 
Como todas as alturas duras.

Este está a ser o ano mais incerto que já vi a começar. Janeiro foi estranho, Fevereiro foi intenso, e esperava por Março para me deixar contaminar pela energia libertadora da Primavera. 
Em vez dessa desejada liberdade, tornou-se imperativo ficarmos em casa. 
Tenho 2 filhos pequenos, um com 3 e uma com 8.   
Só para escrever este texto, tive de me refugiar num pequeno quarto, e não sei quanto tempo o silêncio vai durar. A cada 2 minutos sou interrompida. Imagino os meus amigos que têm equipas para gerir, fichas para corrigir, aulas em skype para dar. Conhecendo os seus filhos, imagino-os em casa, escondidos também num quarto qualquer, a rezar que nenhum deles faça uma birra ou que precise de atenção. 
Ser mãe (e pai!) a tempo inteiro é um trabalho duro. Até os educadores, - penso às vezes - que têm a cargo dezenas de crianças, sabem que o seu trabalho termina às 17h00, e depois vão à vida deles. Sobretudo, sabem que aquele é o trabalho deles. 


Eu trabalho em casa há anos. A casa é o meu espaço e às vezes o meu objecto de trabalho, de conforto, de lazer, de convívio e de família. O meu trabalho é, essencialmente, escrever e registar o que escrevo, em textos e em música e faço-o geralmente sozinha, por isso estou bem habituada ao isolamento. 
Só não estou tão habituada a sentir a minha urgência de escrever, e não conseguir ouvir os meus próprios pensamentos.
Quando isto começou, senti uma ansiedade estranha e nova. O medo do desconhecido; o que era isto? Como e quando terminaria este ambiente de perigo?
Retirei os meninos da escola a meio da semana anterior a ser decretado o seu fecho. Podia estar contaminada, e não saber. Tinha dado um concerto para centenas de pessoas apenas dois dias antes! Como é que a realidade mudou tão depressa?!
O que me ocorreu imediatamente foi que não queria passar essa sensação de insegurança para os meus filhos. Por isso, recusei-me a entregar-me ao medo. Entreguei-me antes a fazer com eles coisas que os divertissem, sobretudo pintar.
Olhei à minha volta e percebi que temos muita sorte: Uma casa bem confortável. Estamos os quatro juntos. Temos paz; o sol e um cheiro característico de Março a entrarem pela janela.   


Como em tudo, tenho uma luz que me guia que se chama ESPERANÇA. Não sou só eu que a tenho. Está descrita nos livros de História, e nas palavras dos que sobreviveram a episódios a que alguns de nós assistimos; o 11 de Setembro em NY, o 11 de Março em Madrid, o Bataclan, o terramoto no Haiti, o desastre em Moçambique. 
Sabemos que o mundo dá voltas imensas e dolorosas, e nós, humanos, temos uma grande característica a nosso favor; a capacidade de nos adaptar.
Quantos de nós já passámos por dias dolorosos, fases da vida totalmente obscuras e incertas, e acabámos por sair delas com mais algum conhecimento? 
Este é só mais um momento negro da nossa História, sabendo que a incerteza é colectiva;  
Os demagogos hão-de querer proibir a alegria, porque esta é uma fase difícil. Hão-de dizer que a esperança não salva vidas. 
Pois eu acho que salva. 

 

A sério, contem comigo se for para animar quem esteja desesperado. Os desesperados não são só os que estão a lutar frente a frente com o vírus, nos hospitais. Os desesperados são também aqueles que não têm certeza nenhuma, que deixaram de ter a segurança do seu sustento. Que vêem um mundo diferente hoje e não sabem como vai ser o resto do mês, o próximo mês, o resto do ano. Contem comigo para dar o máximo de conforto que me seja possível, nem que seja pela capacidade que a música tem de nos fazer abstrair, evadir, viajar.
A esses, interessa dar força e dizer que, sim, o mundo parou, mas parou para todos. 
Tenho orgulho em ver-nos mobilizados desta maneira. Ver-nos mobilizar para ficarmos quietos, salvo o paradoxo. 
A Primavera chegou, e nós não fomos para a rua festejá-la. 
Mas um dia vamos dizer: Fizemos o que tinha de ser feito. E sei que o fizemos bem. 

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