19 maio, 2021
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Que Coisa São As Tardes?

A gigantesca insignificância

Já várias vezes escrevi sobre o prazer que sinto em estar em lugares monumentais. Lugares exuberantes e grandiosos que me fazem sentir pequeno. Porque disso dependo.

Hoje sinto-me cada vez menos religioso e cada vez mais crente. Seria hipócrita e absolutamente ingénuo achar que era isto e depois um fim. Seria pouco. Seria nada. Seria ridículo e absurdo. Temos tido todos a sensação de que quando acabar, vamos exactamente para o mesmo sítio onde estávamos antes de cá estar, que é lugar nenhum. Mas desejamos o resto. 
Há quem mantenha respeitosas crenças e convicções. Há quem se dedique aos outros e se despoje de tudo o que os rodeia em prol das suas extensões. Outros vivem virados para dentro, tentando abstrair-se do vazio que traz a incompreensão. 
A vida vai-se fazendo, as pessoas vão parando, convivendo, conversando, explorando e conhecendo. Desamarram os nós da existência e põem-se a jeito perante a sabedoria. Damos atenção ao detalhe e ao gigante. Queremos saber que se atravessa de uma ponta a outra. O que há nisso. O que nos pode dizer. Já várias vezes escrevi sobre o prazer que sinto em estar em lugares monumentais. Lugares exuberantes e grandiosos que me fazem sentir pequeno. Porque disso dependo. Ter consciência do espirro na eternidade. Fascina-me saber que nada sou. Fascina-me e atropela-me. 
Todos iguais e todos tão diferentes. Vivendo vidas semelhantes perante o tempo. Trabalhando para comer, trabalhando para realizar, trabalhando para construir. Deixar algo para nós e para os outros. Preparamos jantares para amigos. Apaixonamo-nos, choramos de dor e alegria. Damos tudo pela mulher da nossa vida. Fazemos figuras. Vamos às compras, alteramos moradas fiscais, dizemos mal do sapateiro, refilamos com o senhorio, embirramos com os atrasos, incomodamos a família, desesperamos perante o descontrolo, insultamos no trânsito - "o pisca não funciona, oh palhaço?" ; "o Antunes foi desta para melhor". Terá ido? "Então baldaste-te ao reencontro do Liceu?" ; "Vendi a casa" ; "Saiu-me o segundo prémio" ; "olha-me este pacóvio com a mania que sabe mais que os outros" ; "ainda não são onze da noite e já estamos a falar de maleitas, a seguir vêm os desastres". 
A vida é obscena, igual e desigual. Irrepetível e monótona. Deprimente e espantosa. Avassaladora e ridícula. Incomodativa e insignificante. Parada e mutante. A vida é acelerada e instantânea. Serve-nos de pouco e pede-nos a totalidade. Andamos praqui a ver se a entendemos. 
Aos que já cá não estão, haverá crentes devotos que hoje estão descalços e desiludidos com o que encontraram depois, da como haverá ateus e cépticos que estao absolutamente convertidos, espantados surpreendidos. Todos estão certos. O mundo é dos loucos. Os ateus deveriam compreender que Deus está em tudo aquilo que não se compreende e não é suposto. Assim como o amor. Tudo o que se sabe é pouco e não presta. Tudo o que é desconhecido é fantástico e majestoso. 
Assim que damos como certa uma resposta a vida perde-se. Sempre percorremos ansiosos a busca das coisas. O que se desconhece move e inquieta-nos. Viemos cá para enlouquecer. Porque ao menos os loucos tentaram. E isso vale tudo.
 

Gonçalo Câmara