03 fevereiro, 2021
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Que Coisa São As Tardes?

A lua ainda agora aqui estava

Havia sido um verdadeiro dia de Inverno. A chuva caiu a manhã toda e tarde dentro. Nas primeiras horas da noite, as nuvens desapareceram e a tempestade deu lugar ao conforto de um olhar espantado. Uma noite calma, de lua cheia. 

Havia sido um verdadeiro dia de Inverno. A chuva caiu a manhã toda e tarde dentro. Nas primeiras horas da noite, as nuvens desapareceram e a tempestade deu lugar ao conforto de um olhar espantado. Uma noite calma, de lua cheia. 

Uma criança, confinada em casa, mergulhada em mantas e tablets num ruído já familiar de quem se prepara para ir jantar, olhava pela fresta da janela e viu a lua, sumptuosa e até arrogante na sua imponência. Fez-se presente em todo o seu esplendor e calhou cruzar-se com o olhar ingénuo de uma criança de seis anos que mais não fez a não ser contemplar. 

Em silêncio, ali ficou por meros segundos num misto de admiração com tentativa de compreensão, como os adultos quando vão contemplar as grandes obras de arte, numa guerra interior entre: "não percebo nada disto" e "quem fez isto não é deste mundo". 

Assim como rapidamente se apercebeu da presença firme da lua, rapidamente a esqueceu e regressou ao mundo aborrecido e barulhento dos humanos confinados a caminho da mesa de jantar. Apesar de tudo, a contemplação tinha durado pouco. 

Depois do momento em família, a criança regressa à sala onde umas horas antes lhe tinha caído o queixo ao ver a lua. Deitou-se torta e tosca no sofá comprido, enrolou-se em mantas e antes de pegar no tablet dos pais para ganhar sono, olhou de novo a fresta da janela. 

- Mãe, a lua ainda agora aqui estava - exclamou a miúda, inquieta e baralhada. 

A mãe sentou-se com ela e explicou-lhe que tudo aquilo fazia parte do tempo. Levou-a até à varanda do outro lado da casa e mostrou-lhe a lua noutra perspectiva. 

- Vês, filha?

- Como é possível, mãe? Eu vi-a pela janela da sala. 

- A terra está sempre em movimento. Amanhã poderás vê-la de novo sentada no sofá, mas se a quiseres ver mais vezes, tens que estar em movimento. Se queres a lua sempre, não podes parar nunca. 

- Então a Lua não foi a lado nenhum.

- Não, filha. As coisas belas e deslumbrantes nunca vão a lado nenhum. Nós é que as temos de procurar. E quando as encontrarmos, sabendo que não é para sempre, olharemos melhor e por mais tempo na vez seguinte. E se entenderes isto, entendes a vida. 

E fez-se silêncio. 
 

Gonçalo Câmara