13 julho, 2021
3 mins
Que Coisa São As Tardes?

Aos meus Amigos

Temos diferentes tipos de amigos. Aqueles que chegaram agora, aqueles de anos, aqueles que já lá vão. Os de uma vida, os de uma tarde. Todos eles, na sua forma distinta, vão formando e construindo aquilo que somos. Somos todos uma mistura de história, família, noites e amizades. E em todas elas, o tempo que as percorre.

A amizade é das coisas mais valiosas dos nossos dias. É um caso sério. Menosprezamos a amizade, entendemo-la como dado adquirido quando envolve muito trabalho e muito compromisso. Ser um bom amigo requer tempo e dedicação. É algo que está tão misturado com o nosso dia-a-dia, que não fazemos ideia como aconteceu; como é que de repente ficámos amigos e como é que num ápice somos importantes ou até indispensáveis.
A amizade salva. Temos diferentes tipos de amigos. Aqueles que chegaram agora, aqueles de anos, aqueles que já lá vão. Os de uma vida, os de uma tarde. Todos eles, na sua forma distinta, vão formando e construindo aquilo que somos. Somos todos uma mistura de história, família, noites e amizades. E em todas elas, o tempo que as percorre.
Não é quando tudo corre bem que a amizade se revela e se mostra urgente. É exactamente na situação oposta: quando tudo corre mal. A amizade é também desentendimento. É na disputa e no atrito entre amigos que nos apercebemos quão importantes somos uns para os outros. Porque numa discussão entre amigos mal resolvida, há algo que falha. Há um chão desnivelado, um "mal-estar" diário que nos corta os dias, uma respiração ofegante de quem não está em paz com os amigos. Uma situação por resolver entre amigos traz-nos o desconforto, o desconsolo e a inquietação.
É quando estamos nesse limbo que questionamos que raio andamos para aqui a fazer de costas voltadas. Precisamos dos amigos. Mais do que a família, em certos momentos. Um amigo também falha e precisa falhar. É urgente falhar entre amigos para continuar caminho, amadurecer e poder ver o laço ainda coeso. Mas também é preciso cuidar, perguntar, estar. A amizade está para lá de uma conversa, de um café, de um jantar bem regado e de um festival de Verão. Colocá-la nesse saco seria desrespeitá-la, torná-la banal ou até mesmo vulnerável.
Temos o amigo que nos pergunta tudo e mais alguma coisa. A namorada, a família, o cão e o trabalho. Dia-a-dia, semana a semana, mês-a-mês. E aquele que não nos pergunta nada. O amigo do silêncio, o amigo mudo, o amigo que não precisa sequer de dizer nada. Aquele que apenas está. E está muito. É deste que precisamos mais.
Aos meus amigos agradeço os dias, a boa disposição e o tempo. O tempo que me dedicam, o tempo que me dão. As conversas e as desconversas. Os jantares, o vinho e as cervejas. O "ouvi-te hoje", o "estás mais gordo", o "tinha saudades". Aos meus amigos entrego a minha alegria e a minha tristeza. As perguntas e os silêncios, a presença e o "o que tens no frigorífico?". Aos meus amigos agradeço as coisas banais. É neles que repouso as palavras que me pesam e muitas vezes é a muitos deles que entrego as lágrimas.
Não há maior gáudio do que olhar uma mesa cheia de amigos, olhando cada um e percebendo onde está cada pessoa em mim. É bom ouvir os gritos, os insultos, o "tu não percebes é nada de marisco", o "este agora está a dizer que acredita nos signos" É bom olhar a discussão, as gargalhadas descontroladas, a conversa que só ali se tem, porque é lugar sagrado.
Experimentem olhar uma mesa recheada de gente que vos é muito e não dizer nada. Olhá-la apenas. E depois de algum tempo, soltem um "obrigado". Podem gritá-lo. Para fora ou para dentro. Mas digam-no. Porque tudo aquilo é porto seguro. Aos meus amigos, o meu profundo obrigado. 

Gonçalo Câmara