16 abril, 2021
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Que Coisa São As Tardes?

Cuidar de uma coisa

Quando se cuida de uma coisa, ela dura. É tão simples quanto isto, embora exista uma complexidade adjacente. Não se cuida do nada nem do vazio.


Vivemos hoje o sopro descartável de tudo o que nos rodeia. A rapidez, o desnorte, a ansiedade e o imediatismo fazem com que sobre muito pouco ou quase nada para o cuidado e o bom trato. Cuidar de uma coisa, seja ela qual for, é um acto de amor inegável. Cuidar como quem protege, cuidar como quem se dedica, cuidar como quem se compromete. Pode ser uma planta que temos em casa, pode ser um carro clássico antigo. O cuidado tanto atravessa uma grande amizade como um pequeníssimo objecto. Em inglês, a expressão "take care" transmite-nos mais do que o cuidado em si, deixa a céu aberto o "querer bem", o "tratar de", o apreciar e o "desejar que". Cuidar envolve tomar conta. 

Quando se cuida de uma coisa, ela dura. É tão simples quanto isto, embora exista uma complexidade adjacente. Não se cuida do nada nem do vazio. Da vontade nasce o empenho, o dever, a missão e a responsabilidade.  Cuidar é estender a mão e destapar a inércia. 

Dá gosto ver uma coisa bem cuidada: uma horta, um canteiro, uma casa, um artefacto antigo, uma pessoa, uma relação. Actualmente parecemos eternas crianças que exigem teimosamente uma coisa, capricham, conquistam-na, usam-na e deitam fora sem grandes demoras nem arrependimentos. É assustadora a capacidade para descartar algo ou alguém, como quem já não serve, não presta, não se usa ou já não dá prazer. Cuidar pede tempo, cuidar precisa do tempo. O tempo não precisa de nós para nada. Ele acontece, está por aí, nunca se cansa e segue. Somos nós que precisamos dele para cuidar de uma coisa. Cuidar é investir, é relacionar, aproximar. É percorrer lado a lado. De nada serve semear se não se vai regar. De nada serve dizer se não se vai olhar. 

Se for cuidado, haverá beleza até naquilo que estiver gasto.

 

Gonçalo Câmara