10 maio, 2021
2 mins
Que Coisa São As Tardes?

Estranhar a ausência

Estranhar a ausência de alguém é dar-lhe a importância devida. É estabelecer com a pessoa um laço que não se vê mas que transforma. É fazer do desconhecido alguém que importa, que se importa e que suporta. 

Não deixa de ser um comentário absolutamente repentino e injustamente ineficaz na maior parte das vezes que é lançado. Mas é de uma grandeza, de uma generosidade e de uma munificência que passa despercebida. É preciso estar atento para o acolher e logo, saboreá-lo. 
"Sr. Gonçalo, estranhei a sua ausência", diz-me sorridente o barbeiro, arrumando de forma entusiasmada a cadeira em frente ao espelho. Estranhar a ausência diz muito sobre o tempo. Tempo que passamos sem ir a um determinado lugar, tempo sem estar fisicamente presente. Tempo que resulta em saudade. Tempo que determina quem somos e o que somos para alguém. Tempo que revela importância. 
Aqui percebe-se não só que o barbeiro deu pelo tempo que passei sem lá ir, mas também que o cabelo já estava em dimensões consideradas inaceitáveis. A banalidade e a bondade. O corriqueiro e o absoluto. A trivialidade e o sentido. Estranhar a ausência de alguém é dar-lhe a importância devida. É estabelecer com a pessoa um laço que não se vê mas que transforma. É fazer do desconhecido alguém que importa, que se importa e que suporta. 
Quando passa tempo sem vermos alguém que nos habituámos a ver, sente-se um ligeiro desconforto, como se algo nesta linha improvável estivesse suspenso. Algo que está fora do sítio. Um desalento que incomoda. É preciso dizer em voz alta que estranhámos. E é preciso garantir mais alto ainda que não pode passar tanto tempo. 
Seja com o barbeiro, com a senhora que nos vende os cigarros, com o tipo do café que abre antes de todos os outros, com quem nos mete gasolina há anos. É preciso dizer-lhes também que estranhámos o tempo em que não aparecemos. Porque eles são importantes. Eles são muito importantes. Eles são essenciais. Estas pessoas são quem compõe o quadro dos dias. São actores em palco e a cena não avança nem se faz sem eles. 
Estranhar a ausência de alguém. É desta boa Natureza que somos feitos.

Gonçalo Câmara