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16 novembro, 2021
2 mins
Que Coisa São As Tardes?

Notas da Montanha

Tirar fotografias ou guardar na nossa memória? É sempre vantajoso parar um bom bocado diante do sublime tentando mantê-lo puro. Devemos administrar estados de silêncio e aprender a dizer "não sei" mais vezes. 

Já lá vão umas semanas desde o meu regresso do Cáucaso e ainda hoje estava a olhar para as notas tiradas naquele magnífico país com aquelas magníficas paisagens. A montanha puxa o caminhante, pede compromisso e mistura-se com o pensamento. 

Fui recordando pequenos aforismos, breves notas e pensamentos deixados com o Sol de frente enquanto a cerveja georgiana ia escorregando com a cabeça ainda a fervilhar. Partilho consigo alguns apontamentos de viagem: 

"O excesso mata o significado". Muitas vezes deixamo-nos levar pela quantidade perdendo a noção de que, grande parte do tempo, há coisas que devem permanecer sem explicação, outras intactas, como virgens sem que se estrague o significado de uma paisagem, de um momento, de um cenário. Tirar fotografias ou guardar na nossa memória? É sempre vantajoso parar um bom bocado diante do sublime tentando mantê-lo puro. Devemos administrar estados de silêncio e aprender a dizer "não sei" mais vezes. 

Outras notas: 

"não tenho tatuagens. 
as únicas marcas que tenho cravadas na pele são as demoras dos abraços que dei
                                                     e sobretudo 
aqueles em que os corações se juntaram 
e bateram sincronizados 
numa ausência anunciada. 

tenho o corpo tapado de histórias, de viagens e de gente. 

é dessa tinta que somos feitos." 

Foi também uma viagem para recordar pessoas e gestos, aproveitando os tempos mortos para dar vida à saudade e escrever às pessoas de quem sinto falta. Isso muda a visão das coisas. Altera todos os estados para melhor. 

"O mundo, muitas vezes, não está connosco." Em viagem, sozinhos ou acompanhados, durante algum tempo, vamos reconhecendo outras realidades e apercebendo que pensamos de forma diferente quanto nos defrontamos com situações insólitas. Cada um reage da forma que acha melhor, mas cada um é singular e o mundo nem sempre nos acompanha. 

"A Natureza não precisa de nós para nada". 

Termino com esta nota. Porque antes e depois de mim, a montanha continuará intacta, imponente, segura e firme. Há que aprender a escutar aquilo que já cá estava, agradecer e tentar olhar para dentro como nos desafia sempre a Natureza. 

 

Gonçalo Câmara