27 abril, 2021
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Que Coisa São As Tardes?

O poder da linguagem e o perigo da transcrição

As palavras são de uma importância extrema. As palavras são perigosas e urgentes, destroem e cimentam, criam e elevam. No mundo do trabalho, aprendi, às vezes da pior forma, que existem infinitas formas de se dizer a mesma coisa.

Há uns tempos soube da história de um Prémio Nobel da Medicina que tinha sido convidado para ir falar à Coreia do Sul, num encontro de mulheres cientistas. Uma das pessoas que estavam nessa convenção publicou no Twitter que o convidado tinha dito que as mulheres cientistas eram um perigo porque "a gente apaixona-se por elas, elas por nós, e se lhes fazemos uma crítica, elas choram e se calhar deveríamos ter laboratórios diferentes para homens e para mulheres". Disse a senhora que publicou isto no Twitter que ficou um ambiente muito desconfortável na sala - que havia gelado - com silêncio e sem risos. Gerou-se, a nível global, uma indignação monumental provocada pelas declarações. O pontapé de saída foi dado na rede social e rapidamente os media pegaram no assunto. Jornais publicavam vários artigos, entre os quais, propostas de debate como: "As mulheres não devem ter lugar na ciência? O Prémio Nobel acha que sim". Este homem foi forçado a demitir-se da Universidade de Londres onde leccionava e foi viver para o Japão com a mulher, que também era cientista. 

Passado um mês desta polémica se ter instalado, houve uma senhora que disse que também havia estado nessa grande palestra da Coreia do Sul e tinha gravado as palavras do prémio nobel. Mostrando a gravação, o que se ouve o senhor dizer é o seguinte: "é para mim um prazer estar aqui, embora seja surpreendente convidarem um porco chauvinista como eu para falar num encontro de mulheres cientistas. Eu acho que o problema das mulheres na ciência é o seguinte: a gente apaixona-se por elas, elas por nós; quando a gente lhes faz uma crítica elas choram. Se calhar até deveríamos ter laboratórios separados para homens e mulheres. Bom, agora a sério, estou muito impressionado com o desenvolvimento científico da Coreia do Sul e as mulheres tiveram um papel absolutamente essencial nesse desenvolvimento. Espero que continuem e que não deixem que um porco chauvinista como eu vos detenha. Ouve-se na gravação uma grande gargalhada e um aplauso geral. Nessa altura era tarde demais. A vida do homem já não ia voltar a ser o que era. A vida da pessoa que colocou nas redes sociais duas frases escolhidas, segue como se nada tivesse acontecido. 

Serve este inquietante exemplo para ilustrar a proposta de reflexão que queria deixar aqui: as palavras são de uma importância extrema. As palavras são perigosas e urgentes, destroem e cimentam, criam e elevam. No mundo do trabalho, aprendi, às vezes da pior forma, que existem infinitas formas de se dizer a mesma coisa. Na rádio então, esta premissa surge em tudo o que se cria. A mesma frase com ou sem sorriso, com ou sem foco, com ou sem intenção. No entanto, neste caso o tema vai mais fundo. Não só às vezes podemos criar atritos com a linguagem, como podemos destruir a vida de uma pessoa com transcrições. Jornais relatavam o que se passava no terreno, na vida das pessoas, "lá fora". Hoje relatam o que se passa nas redes sociais. Ontem aguardavam confirmações de factos, hoje aguardam publicações em caps lock. Deixou-se morrer a importância dos detalhes. Vive-se bem com a superficialidade. Leu-se e já não se questiona. Deixámos de perguntar. A verificação tem ficado para depois. Para depois da polémica, para depois da discussão, para depois do mal já instalado. 

Já por várias vezes dei por mim em debates acesos onde se discute o sexo dos anjos. Já presenciei discussões em tons acima da média cujo o tema polémico, deixaria de ser polémico se todas as partes parassem para se ouvir. Às vezes é uma questão de semântica. Já ouvi muita discussão acabar em "porra, estamos a falar do mesmo então". Há que polir a conversa, o que se diz, o que se quer dizer. Há que deixar arrefecer a pólvora do discurso. E há, acima de tudo, que levar em consideração. Tudo. O contexto, a pessoa, a pessoa no contexto. Há que ter em conta a rapidez e a urgência em ser primeiro. E que, na maior parte das vezes, é aí que está a queda. 


Gonçalo Câmara