"Telemóvel, chaves, carteira...Rádio"

A rádio é tão essencial quanto as chaves de casa, tão necessária quanto a carteira, tão certa quanto a morte. A rádio é uma certeza e nela muitas vezes julgamos ver a redenção.

Há umas semanas, numa reunião criativa a propósito de novas estratégias de comunicação para a rádio face à actual pandemia, percebemos que não valia a pena inventar muito na forma como a dávamos a conhecer. Quanto mais limpo, melhor. A rádio, é na sua essência, presença. 

Pode parecer simples à primeira vista, mas tudo isto se reveste de uma enorme camada de entrega por parte de quem a faz e obviamente de quem a ouve. Quem a faz é muito mais de quem lhe dá voz: locutores, sonoplastas, técnicos de som, produtores. Todos essenciais à construção e manutenção deste meio que se tornou parte essencial da vida das pessoas ainda eu não era sequer projecto de vida dos meus pais. 

A rádio faz parte de nós, da nossa forma e do nosso entendimento. Até o mais empedernido dos teóricos que declararam a sua morte, é hoje ouvinte convertido. A rádio é tão presente que se cheira. A rádio move-se connosco e em nós. Um ouvinte uma vez enviou-me uma mensagem a dizer que a rádio era o seu regulador de horários. Sabia perfeitamente que se ouvia o Jazz Fora d'Horas ainda em casa enquanto tomava o pequeno-almoço, estava atrasado para o trabalho, porque normalmente era algo que já acontecia na segunda-circular. A rádio serve de moderação, indica-nos o caminho, caminha. 

A rádio é tão essencial quanto as chaves de casa, tão necessária quanto a carteira, tão certa quanto a morte. A rádio é uma certeza e nela muitas vezes julgamos ver a redenção. Para muitos é o escape perfeito, para outros algo sem jeito, mas para todos: presença. Quer queiramos, quer não, a rádio está, faz-se. A rádio acontece-nos. 

E por ser tão íntima e tão próxima, é tão humana e basilar. 
A rádio é como um amigo que chamamos para estar em silêncio. 


Gonçalo Câmara

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