Que é feito da vida real?

Porque a verdade é que vivemos a constante expectativa numa permanente e imatura vontade do parecer, do aparentar, do representar e pouco ser.

Ruy Belo escrevia "Eu vinha para a vida e dão-me dias" e ainda hoje me demoro neste verso. Porque a verdade é que vivemos a constante expectativa numa permanente e imatura vontade do parecer, do aparentar, do representar e pouco ser. E confrontado com a decepção, que faço eu com estes dias, afinal? 

A autora Cláudia Lucas Chéu escrevia há uns tempos uma crónica onde dissecava os primeiros encontros e aquilo que é dito e mostrado nos primeiros encontros. Perante a beleza da mulher que chega e o tremelique de um nervoso miudinho há muito não corrigido, contamo-nos melhores do que aquilo que somos. E se no primeiro encontro a coisa correr bem, vamo-nos lembrar ao centésimo primeiro que o que se disse da primeira vez não existia. Talvez se possa ter vindo a conquistar, mas muito era paleio. É normal, é humano. 

Em grande medida, vamos vivendo neste limbo entre o ser e o parecer ser. A rede social trouxe-nos o narcisismo fácil, a vaidade gratuita, a vanglória desmedida. E sem darmos conta, sem percebermos como é que aqui chegámos, damos por nós mergulhados num mar de espelhos. As redes sociais, mal utilizadas, são um perigo. Um perigo individual que se estende. 

Terei eu desfrutado do prato que expus? Terei sentido a brisa a percorrer-me o rosto e a aquecer-me o sangue quando partilhei o meu final de tarde? Soube-me bem o mergulho em alto-mar ou terá sido a onda de feedback à imagem mais prazerosa? Serei capaz de me lembrar do diálogo a dois naquele inesperado fim-de-semana ou apenas recordo a fachada do turismo rural bem enquadrada? 

"Não importa se temos uma boa vida se não a mostramos", são palavras do jovem humorista Manuel Cardoso. É tão real quanto triste. Esta busca ininterrupta por partilha, por comentários e outros discursos atirou-nos para a banalidade, fazendo-nos desaprender a comunhão dos sentidos. 

Ser e parecer ser, uma luta interior para muita gente. Ou se quisermos, ser e ter. Porque o que tenho é melhor ou mais valioso do que aquilo que sou, o que pareço ser é dez vezes mais interessante do que aquilo que realmente tenho para mostrar. E assim, a vida vai-se fazendo com uma capa inabalável. 

Com pena noto, que com o tempo que nos avisa, vamo-nos esquecendo de ser. 
Há que combater isso. 

Gonçalo Câmara

Mais