O que nos conta quem olha

É o que nos resta quando estamos frente a frente com alguém. Focar o olhar e tentar perceber o que nos contam aqueles meros segundos de um olhar rasgado, amendoado ou aguado.

A máscara tem estado no centro das atenções, das conversas, das gargalhadas ou até das lágrimas. Já se falou de tudo no que à máscara diz respeito: como se coloca, onde se deve utilizar, com que frequência se deve lavar, onde as encontrar. Já se falou até da dificuldade em reconhecer alguém que nos acenou. Já ninguém passa por mal-educado: "desculpa, com a máscara nem vi que eras tu", está dada a desculpa e segue-se caminho. 

Mas acho que ainda não tocámos num assunto interessante: o olhar. Há quem diga que, com tanta utilização, vamos perdendo a expressão e a forma como nos mostramos. A máscara esconde-nos a inquietação ou a boa disposição. Bom, talvez não a cem por cento. Ficam de fora os olhos que nos contam mais do que aquilo que possamos imaginar. 

É o que nos resta quando estamos frente a frente com alguém. Focar o olhar e tentar perceber o que nos contam aqueles meros segundos de um olhar rasgado, amendoado ou aguado. Perde-se a expressão do nariz e da boca, as covas da bochecha ou o ar macambúzio de uma manhã de segunda-feira, mas ganha-se o olhar. E que vitória. 

O olhar surpreso de quem recebe uma notícia inesperada, o olhar cerrado de quem não percebe patavina do que se está a passar, o olhar vazio de quem se procura, o olhar emocionado e sereno de quem espera melhores dias. 

Tiremos partido desta realidade para tentar perceber a história de quem nos olha. 

 

Gonçalo Câmara

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