Pessoas que se atravessam

Nada é mais enriquecedor do que tropeçar numa pessoa que nos deixa a pensar. Tenho tido a sorte de encontrar pessoas interessantes ao longo da minha vida. Pessoas que se cruzam, que se atravessam e têm algo para deixar, histórias para contar, coisas para dizer, reflexões para propôr. 

Há uns anos, o Sol punha-se no Índico e eu procurava um sítio para jantar perto de Nilaveli, na costa este do Sri Lanka, com mais dois amigos. Encontrámos um jovem que deambulava pela praia enquanto apanhava sacos de plástico espalhados pelo areal. Era viajante como nós e perguntámos se conhecia alguma coisa nas redondezas. Acabámos por jantar todos juntos debaixo dum toldo improvisado perto da estrada de terra batida. 

Julien era francês, escanzelado, cabeludo e com barba de um mês. Tinha vinte e poucos anos. Mostrara a fotografia do seu cartão de cidadão e estava irreconhecível. Era outra pessoa, sem barba e com mais quinze quilos em cima. Viajava há mais de um ano pela Ásia. Dizia que só voltava a Paris quando se restabelecesse. Queria regressar ao Nepal para comprar um terreno onde pudesse construir uma casa com vista para os Himalaias. Mas antes, ia estar treze meses num mosteiro. Queria perder a pressa e a inquietação. Queria aprender a olhar para si. Hoje pergunto-me se conseguiu a sua vista ou se se perdeu nela. 

No ano seguinte, a percorrer a Rota da Seda, encontramos alguma paz na Song-Kul Lake. Nessa tarde e nessa noite conheci duas pessoas das quais muitas vezes me vou lembrando. A Fanny, uma jovem francesa que chegava à lagoa num cavalo, sozinha, vinda do Tajiquistão e o Nigel, um velho inglês que perdera a mulher e que todos os anos viajava para a lembrar. Jantámos todos nessa noite e partilhámos histórias. Vim a descobrir que o Nigel tinha uma casa em Tavira e que a Fanny conhecia pouco do seu próprio país. Preferia a distância para ganhar coragem e vontade. 

Todos estes e tantos outros, que foram partilhando comigo as suas histórias e os seus problemas. Uma pessoa com problemas é muito mais interessante que todos os outros. Uma pessoa cem por cento feliz, se existir, não tem graça. 

Na Patagónia, o Fernando era o meu guia e dizia que cada vez que discutia com a ex-mulher subia à montanha. Havia dias de três subidas, mas com três soluções. A montanha compunha o puzzle das suas ansiedades. Na China, um nómada surdo-mudo conseguiu contar uma anedota por gestos e pôr uma sala inteira a rir. Na Colômbia, a Camille, a Katherine, o Sebastian, o Hector, o Javier mostraram, de formas bem distintas, que não era preciso sofrer para criar. 

Não tem de ser apenas quando fazemos o nosso caminho lá fora. Talvez em viagem, dado o olhar atento e o coração aberto, a história seja acolhida de outra forma. Mas por cá, há pessoas que se atravessam vida adentro sem percebermos muito bem como e que nos desarmam. 

No outro dia alguém me dizia: "olha para fotografias antigas, daquelas onde estás tu mas aparecem outras pessoas totalmente desconhecidas que estavam ali, naquele momento, por mero acaso. Tira um bocado para fazeres este exercício: onde estarão agora essas pessoas? Quem são? O que pensam? Algumas talvez já tenham morrido, outras emigrado, outras envelhecido rápido. E em quantas fotografias de outros estarás tu também? Será que alguém olha para elas e pensa: quem será este tipo aqui ao longe? Como será a sua vida? Quem teria ele para me contar?

É estranho mas talvez útil, este exercício de reconhecimento. Tropeçamos no desconhecido. Estamos na vida dos outros sem querer. E isso é uma grande responsabilidade. 
 

Gonçalo Câmara

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