O dom da escuta

"Escutar é também essa qualidade de reaprender a forma de estar. Há quem tenha grandes dificuldades neste processo de aprendizagem não porque lhes é difícil ser ouvinte, mas sim porque lhes é difícil parar."

Há quem tenha o dom da palavra. Outros, o dom da escuta. Todos recordamos a frase de Goethe: "falar é uma necessidade. Escutar é uma arte". E por isso esta primeira crónica vai para os ouvintes. Todos os ouvintes, não apenas os da rádio. Aqueles que ouvem, que param para ouvir, que ouvem atentamente. 

Escutar e ouvir são certamente coisas diferentes. A primeira traz um maior capacidade de compromisso, requer uma maior dedicação e é, sem dúvida, algo que vai mais fundo. A segunda às vezes torna-se mais banal, mais corriqueira, mais leve se quisermos. Escutar aplica-se talvez numa relação mais próxima ou em plena comunhão com a Natureza, devolvendo a pessoa aos sentidos. Ouvir aproxima-se de uma relação mais interpessoal. 

Temos grandes comunicadores, mas também temos grandes ouvintes. Esta é uma arte silenciosa, que passa despercebida, mas continua a ser urgente. Se por um lado, um dos grandes problemas dos nossos tempos está na falha de comunicação, grande parte deve-se à falta de escuta ou a uma escuta deficiente. As pessoas hoje não ouvem, não estão para isso. Têm mais que fazer, têm outros estímulos. Tudo acontece muito depressa. E a arte da escuta demora o seu tempo, pede uma paragem, ou melhor, uma interrupção na pressa dos dias. 

É um gesto nobre, esse de parar para ouvir. Normalmente é um acto solitário. A pessoa entra noutra dimensão quando se predispõe a escutar. Comportamo-nos de maneira diferente quando o conseguimos fazer. Há umas águas quietas de um porto que se fazem sentir no instante da escuta. 

Temos a vida ligada aos automatismos, às rotinas, às correrias. Escutar é também essa qualidade de reaprender a forma de estar. Há quem tenha grandes dificuldades neste processo de aprendizagem não porque lhes seja difícil ser ouvinte, mas sim porque lhes é difícil parar. Parar é um esforço para muitos. Escutar é o passo que precede a quietude. 

A vida acaba por ser repetida para todos. Veja-se o caso das nossas vinte e quatro horas. Onde é que elas são diferentes e novas na verdade? Acordamos, trabalhamos, convivemos, regressamos, adormecemos, para tudo se repetir no dia que se segue. É precisa a escuta para se dar a surpresa, para nos deslumbrarmos com o nada, para redescobrirmos o espanto dos dias. 

 

Gonçalo Câmara

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