Os dois modos

Cuidar o inesperado é permitirmo-nos ao modo aberto, não como pano de fundo mas como intervalos pouco óbvios em cima da espuma dos dias. Abrir a porta ao improviso, acolher o extraordinário, abraçar o repentino, sentir o imprevisível. São tudo desafios que podem equilibrar a balança de uma vida fechada.

O actor John Cleese desenvolveu uma teoria bastante interessante à volta do modo de operar do ser humano. Segundo o comediante, o ser humano actua sob dois modos: o modo aberto e o modo fechado. 

O modo fechado é o modo onde estão a maior parte das pessoas no seu dia-a-dia: o modo mais racional, o "piloto automático", aquele a que eu gosto de chamar o "modo lista das compras", onde sei que depois de ir buscar os miúdos à escola, tenho que passar ainda na papelaria, depois na arrecadação e só depois no supermercado. É o modo dos gestores, do "excel", da cabeça em permanente funcionamento e organização. 

Já o modo aberto é o chamado modo criativo. Aquele onde estamos a folhear um livro, pelo simples prazer da leitura, ou a fazer zapping na televisão só porque sim, a caminhar. É um modo mais livre, mais arejado e desprendido. Normalmente, é neste modo que nos ocorrem as ideias. Para quem trabalha com a criatividade e depende dela, este é um modo importante. Depois de ocorrida a ideia, parte-se para o modo fechado para a executar. E assim vamos funcionando, nesta linha dançante entre modos, durante toda a nossa vida. 

Como em tudo aquilo que se faz, é uma questão de gerir equilíbrios. Aqui há uns tempos, numa conversa acesa num jantar entre amigos, um deles afirmava alto e bom som: "as pessoas têm que se capacitar que 60% da vida é aborrecida, é rotineira e difícil. Não há nada a fazer. Ela é assim mesmo". Como devem calcular, deu pano para mangas e dali saíram muitas outras afirmações. Umas iam ao encontro da premissa, outras iam totalmente contra. Acrescentei apenas que, dentro dessa realidade que é uma vida aborrecida e difícil, há que promover e reaprender a viver o modo aberto. Porque o fechado estará sempre presente, quer queiramos, quer não. 

E por isso, torna-se quase imperativo romper de quando em vez com todo este esforço de regularidade. Será este comportamento aquele que trará a surpresa aos momentos já expectáveis. Cuidar o inesperado é permitirmo-nos ao modo aberto, não como pano de fundo mas como intervalos pouco óbvios em cima da espuma dos dias. Não estando atentos, podemos correr o risco de viver todas as horas no modo fechado afastando-nos da nitidez dos sentidos. 

Abrir a porta ao improviso, acolher o extraordinário, abraçar o repentino, sentir o imprevisível. São tudo desafios que podem equilibrar a balança de uma vida fechada. Sair de casa só porque sim, escolher o caminho junto ao rio, deixar que a chuva caia sobre nós, acenar a uma pessoa desconhecida, dar uma discussão como perdida, escolhendo o beijo como rendição e afirmar com toda a franqueza: "que se lixe, a vida é melhor assim". 



Gonçalo Câmara

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