Breves notas sobre nada

O medo não nos deve impedir de dar um passo, como nos disse Cocteau, mas segura-nos. O medo deve segurar e não aprisionar. Considerar é amadurecer, ponderar é cimentar, colocar em dúvida é tornar humano.

Atribuída ao poeta Jean Cocteau, a notável afirmação "não sabendo que era impossível, foi lá e fez" atravessou-se na minha vida quando vi a imagem da mesma grafitada numa parede do Morro da Mangueira, no Rio de Janeiro. Desde que a vi, este tem sido o lema e também tema.

Carrega tanto por dentro. A coragem de partir ao inexplorado, a própria ousadia e a imprevisibilidade de coisa nenhuma. Sempre gostei de minuciar este pensamento. Começa com o desconhecido perante o futuro. E é assim que estamos, desde que cá chegamos. Assume a impossibilidade que se rompe, terminando com algo muito concreto: fazer. Fazer, gerar, criar, produzir, executar, compor, deixar obra. 

"Foi lá e fez". Durante muito tempo estas palavras ecoaram nas minhas tardes. "Foi lá e fez", "foi lá e fez". Esta acção concreta que dá frutos: ir e fazer. Não sei se poderemos dar como certa a ausência do medo. Talvez sim, porque o sujeito não teme e avança mesmo não tendo consciência da impossibilidade. Por outro lado, parte não sabendo, o que nos remete para outra questão: se soubesse ser impossível, avançaria? 

Encontro escondida nesta reflexão a realidade do controlo. Essa vigilância constante de que nos achamos protagonistas. Esse domínio das coisas. Achamo-nos donos de tudo aquilo que nos chega, que passa por nós, seja o tempo ou alguém, quando deveríamos aperfeiçoar o "não sei". Deveríamos ser capazes de dizer mais vezes "não sei", de nos reduzir, de nos tornarmos pequenos perante a realidade daquilo que não é tangível. Deveríamos olhar para o inexplicável e sossegar, aceitando-o. É o trabalho de uma vida, olhar para a dor e o sofrimento como algo que necessário para moldar. Esta realidade tirânica, incompreensível e muitas vezes, trivial. Urge aceitar a vida como uma jangada mal construída que atravessa o rio diariamente, à mercê da sua própria corrente. 

Gosto de viajar também por isto mesmo: para me capacitar que nada controlo e que nada sou perante a grandeza e proeminência dos ciclos. Há quem ache que quando morrermos, vamos exactamente para o mesmo sítio onde estávamos antes de nascer - que é lado nenhum; outros acreditam que nos espera a escadaria íngreme que nos levará para outro patamar, o olhar inverso, como quem se vê do lado de lá do espelho, mas todas as teorias têm algo em comum: a ausência de controlo no que ao fim diz respeito. 

Onde mora o controlo, estão também experiências como a dor, o sofrimento e o medo. O medo não nos deve impedir de dar um passo, como nos disse Cocteau, mas segura-nos. O medo deve segurar e não aprisionar. Considerar é amadurecer, ponderar é cimentar, colocar em dúvida é tornar humano. 

Gonçalo Câmara

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