O jardineiro do cemitério

O cemitério é um lugar pesado, onde o excesso de ausência transforma-se numa presença carregada. O homem, na casa dos setenta, tinha uma relação forte com aquele lugar. Considerava-se o guardião da ausência.

Em Março passado fez cinco anos que estive quase um mês a explorar o antigo Ceilão, actual Sri Lanka, com mais dois grandes amigos e viajantes. A meio da viagem estávamos em Kandy - a última capital da era dos reis anciãos - onde visitámos o Kandy War Cemetery. Um cemitério do império britânico onde estavam os ingleses que morreram em combate na segunda grande guerra. 

O termómetro marcava trinta e quatro graus com noventa porcento de humidade. Tínhamos sede e precisávamos de refrescar, desse por onde desse. O primeiro contacto com o cemitério aconteceu por acaso, numa busca incessante por sombra e descanso. 

"Por aqui cavalheiros!" - exclamou um senhor. 

Era o jardineiro do cemitério, responsável por manter aquele espaço limpo e protegido. Era filho de uma governanta de um embaixador inglês. Daí falar um inglês fluente e saber tanto de história. Considerava-se o guardião da ausência. O cemitério é um lugar pesado, onde o excesso de ausência transforma-se numa presença carregada. O homem, na casa dos setenta, tinha uma relação forte com aquele lugar. Acabou por ser o nosso guia, contando-nos as suas histórias, apontando para as campas e explicando quem eram aqueles soldados de então. Jovens combatentes e seus familiares. Sentámo-nos à sombra de uma árvore que cobria grande parte do espaço.

"Bem sei que à primeira vista, o cemitério não é o lugar que escolheríamos para descansar de viagem mas os mortos têm muito mais a dizer do que aquilo que imaginamos" - afirmou, enquanto varria as tímidas folhas de Inverno ainda dispersas pelo jardim. Dizia com confiança que não temia a morte. Arranjar o jardim era educá-la, sabê-la realidade. Revia-se naqueles soldados. O seu objectivo era um e um apenas: cuidar do jardim. E ao fazê-lo, dignificava a ausência presente. 

Notava-se que era um homem com gosto em contar histórias. Afinal, não era todos os dias que lhe apareciam três jovens ocidentais a viajar por aqueles lados. Aproveitou a oportunidade para partilhar tudo o que conhecia. Nós, jovens, temos sempre muito a aprender com os mais velhos. Ainda para mais, velhos sábios, com pensamento profundo e com vontade de o partilhar. São oportunidades únicas de aprendizagem. Há que agarrá-las.

Quis entender o que estaria por trás da afirmação: "os mortos têm muito mais a dizer do que aquilo que possamos imaginar". E foi então que o jardineiro, levantando-se da pedra onde se encostara, foi ziguezagueando pelas campas explicando que, quando vamos a um funeral por exemplo, quem ali está deitado acaba por ser também cada um de nós, cada pessoa que vai homenagear ou lamentar aquela morte. Apontando para as campas, ia dizendo que tudo aquilo nos faz lembrar que aquele será um dia também o nosso descanso, o nosso sono mais profundo, que a morte é uma lembrança. Citou Shakespeare - o que achei inesperado e extraordinário - falando da célebre cena em que Hamlet trava um monólogo com a caveira. 

"Tudo o que somos e fazemos, acabará assim" - continuava, apontando para baixo. "Resta-nos fazer o melhor". 

No livro "A Papoila e o Monge" há um poema que diz que depois de uma tarde a cuidar do jardim, a nossa vida importa menos. Pois o jardineiro fez-nos lembrar que a nossa morte também. 
 

Gonçalo Câmara

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