Pôr o silêncio em dia

Constrangedora é a conversa fiada, a lenga-lenga do óbvio, a banalidade do discurso solto e vazio. Às vezes mais vale a reticência. Estar sem dizer, permanecer olhando e com isso, contando.

O silêncio é um lugar. Um lugar que tem o seu próprio ritmo, um lugar onde se relança a vida. Convidar alguém para o silêncio revela uma enorme capacidade de partilha, de compreensão, bondade e carácter. Partilhar o silêncio com alguém ergue-nos. 

No entanto, na maioria dos casos, é necessário enquadramento, um cuidado especial e um trabalho com equilíbrio e cadência. Não é qualquer pessoa que se atira de cabeça ao silêncio de uma vez ou na primeira vez, como não é qualquer um que se lança ao oceano sem saber nadar, ou mergulha nos versos de Herberto Helder esperando compreendê-lo nas primeiras leituras. 

Quantas vezes não convidámos alguém para pôr a conversa em dia por ter passado tanto tempo? É normal, há coisas para conversar, histórias para contar, gargalhadas para largar. Não menos importante é o silêncio. Desafiar alguém para pôr o silêncio em dia deveria ser regra. Ter coisas para calar, histórias para não dizer, sorrisos com o olhar. Entrar neste processo com alguém tira-nos os pés do chão. 

Embora muitas vezes atribuído ao momento solitário, o silêncio partilhado é uma realidade muito nítida. Uma construção que pede empenho. Há outros sons quando estamos em silêncio, paisagens de uma outra cor, frutas com outro sabor e relvas de outra textura. Incontáveis as vezes em que alguém o acha constrangedor. "Então, não dizes nada? Estás para aí calado". Errado. Há quem esteja calado e quem esteja em silêncio. É insuportável para muita gente. Mas constrangedora é a conversa fiada, a lenga-lenga do óbvio, a banalidade do discurso solto e vazio. Às vezes mais vale a reticência. Estar sem dizer, permanecer olhando e com isso, contando.  O silêncio reclama atenção redobrada. O silêncio é um lugar onde somos esperados e onde se regressa sempre. 
 

Gonçalo Câmara

Mais