As coisas simples

Desenganem-se aqueles que acham que viver e apreciar as coisas simples é sinónimo de não querer correr riscos. As pessoas reagem com alguma defesa aos despretensiosos, aos despojados e aos informais. É-lhes difícil, muitas vezes, compreender as coisas simples e as pessoas que mergulham, que vivem das e nas coisas simples. 

Estar aberto a acolher os pormenores é um desafio nem sempre fácil. Poder compreender os detalhes traz-nos uma vida para lá da vida em si. Esta, a nossa, imprevisível a maior parte das horas, não olhando a planos. 

No livro "O Eremita Viajante" há um poema extraordinário que diz: imóvel contemplo a Lua / e os outros pensam / que sou cego. Este consolo na contemplação é muito poucas vezes entendido pelos demais. Não só o consolo em si, mas o consolo em algo que é simples, que é leve. As pessoas reagem com alguma defesa aos despretensiosos, aos despojados e aos informais. É-lhes difícil, muitas vezes, compreender as coisas simples e as pessoas que mergulham, que vivem das e nas coisas simples. 

Isto leva-me a pensar que, em determinadas alturas, optamos pelo atribulado porque se formos pelo caminho contrário, corremos o risco de nos acharmos pouco exigentes, pouco esforçados, gente de pouco brio. Mas é preciso separar. Escolher o pequeno, optar pelo simples, não significa viver em leviandade. 

Tenho-me cruzado com gente que vive naquilo que é puro, simples, inocente e imaculado. Pessoas exigentes que gostam de ir ao sabor do ligeiro e do desafogado. A minha vizinha do último andar do prédio, que apanha a vista para o Tejo e que opta pelo café na varanda e por aqueles sete minutos sentada e serena antes de sair para trabalhar. A pessoa que vai à melhor gelataria do país, conhecida pela sua variedade de sabores, muitos deles inexplicavelmente saborosos, e opta pelo cone de duas bolas de chocolate e morango, porque é daquilo que gosta. A pessoa que, perante a infindável fila de trânsito, decide abrir as quatro janelas do seu carro e aumentar o volume do rádio que tocava When Joanna Loved Me do Paul Desmond porque achou que merecia ser partilhado com quem também sofria da inércia rodoviária. Aquele que se espanta com a nuvem que destapa o Sol, aquele que se sobressalta com a promessa de uma viagem a dois. Aquele que não corre se começa a chover. Pelo contrário, desacelera. 

Há uns anos fazia emissão num exterior para a cobertura de um festival de Verão. Pedi ao técnico de som se não se importava de me ir buscar um café, visto que eu não podia sair do estúdio. Ele saiu porta fora, deu dois passos para descer as escadas e rapidamente inverteu caminho para voltar e dar um abraço à sua mulher que estava dentro do estúdio connosco. Depois do abraço, voltou a sair. Uma coisa tão simples. 

Desenganem-se aqueles que acham que viver e apreciar as coisas simples é sinónimo de não querer correr riscos. Errado. Veja-se o caso deste regresso para o abraço. Parecia que algo ali, naquele instante, faltava ao técnico de som. Algo na sua vida estava em suspenso. Algo estava por terminar. Viver uma vida com coisas que ficam por fazer. Isso sim é um risco. 

Gonçalo Câmara

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