O que fica de quem passa

O que fica de quem passa é o clarão. O clarão que permanece. O amor que se deu, largando as emoções que deram lugar ao calor do silêncio e ao chão que o sustém.

Imaginemos por instantes uma lâmpada, de luz forte e intensa e nós ali, fixados durante uns segundos. A luz apaga-se e fica um clarão. Um clarão de uma luz já inexistente, um clarão que não se entende, um clarão que se demora. Para essa presença inexplicável muitos aplicam a definição do amor, outros a saudade, outros a recordação ou mesmo algo que se torna incómodo. 

Nós somos tudo aquilo que está para trás, desde o projecto e a sua gente até ao nosso corpo e à nossa história. E nesse trilho muitas vezes atribulado, nesse mar agitado e nessa ondulação maior que a prevista, estão as pessoas com quem nos cruzamos. Depois, tudo o que pode estar em cima dessa realidade. As transformações, os desprendimentos, o despojamento até se sentir o frio, as derrapagens e o horizonte do regresso. 

O que fica de quem passa é o clarão. O clarão que permanece. O amor que se deu, largando as emoções que deram lugar ao calor do silêncio e ao chão que o sustém. Ficam conversas, sons e até cheiros. Quantas vezes não nos perdemos no aroma de uma especiaria que nos leva daqui até outros tempos, outras pessoas, outros momentos. O amor é também essa recordação tímida 
de outras eras. Uma viagem que se faz distante e nos segura. O que fica de quem passa é o som das palavras, a melodia de uma gargalhada impossível de esquecer. 


O amor não é sobre o regresso, é sobre a consciência do tempo. É sobre não saber o que fazer. É sobre pensar muito e sentir o seu dobro. É sobre recordar abraçando um diálogo. É sobre estar mas também permitir. Não ser apenas quem percorre o rio ao lado de quem ama mas também quem conduz a jangada. 

E que ninguém se engane: o que fica de quem passa é tudo isto que não se explica numa crónica. 

Gonçalo Câmara 

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