QUANDO COMPARADOS

Passamos a nossa vida deslumbrados com o que acontece ao lado. Aqui ao lado, aqui tão perto. De tal forma desviados que a nossa vai ficando para depois. 

QUANDO COMPARADOS

Disse Soren Kierkegaard que a raíz da infelicidade humana está na comparação. A afirmação do poeta e filósofo dinamarquês tem sido um atropelo real nas diferentes teses que dela surgiram. 
Passamos a nossa vida deslumbrados com o que acontece ao lado. Aqui ao lado, aqui tão perto. De tal forma desviados que a nossa vai ficando para depois. 
Este tem sido um tempo propício à comparação: nas escolas, nas empresas, nas relações, no seio familiar. As redes sociais têm sido o trampolim ameaçador para que essa realidade se torne cada vez mais vincada na estrutura humana. A nossa vida comparada com quem partilha também a sua. 
É urgente este ponto de equilíbrio entre a consciência de que não estamos nem vivemos sozinhos e a criação de um tempo e de um espaço solitário que nos permita valorizar, assegurar e amadurecer a nossa experiência para entender que antes e depois de nós, haverá sempre alguem em posição e situação melhor. Fala-se em melhor porque é para ela que tendemos a olhar e daí tornarmo-nos infelizes.
Aprendemos a viver em comparação, tornámo-nos competitivos nas empresas e nas escolas e aquilo que seria algo para trilhar de forma saudável, rapidamente se transformou numa linha recta de olhares laterais. A meta deixou de ser importante. Quem dela se aproxima connosco, sim. 
Muitas vezes a tristeza ganha espaço e apodera-se como a erva daninha vai conquistando onde não é bem-vinda. E instala-se porque vivemos a casa do lado. Aquela onde o ordenado é maior, onde os filhos estão encaminhados e os nossos não, onde a mesa está farta e a nossa não, onde o tempo se demora e o nosso não.
As viagens ajudam-nos nisso. Ensinam-nos a olhar para quem está ao lado. Não para comparar, senão para entender.

Gonçalo Câmara
 

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