Viajar é perder

Viajar abre espaço ao diálogo interior. Viajar é misturar, é mergulhar numa realidade distante da nossa e que nos aproxima. E várias são as afirmações que nos vão mostrando a importância de fazer caminho.

Viajar abre espaço ao diálogo interior. Viajar é misturar, é mergulhar numa realidade distante da nossa e que nos aproxima. E várias são as afirmações que nos vão mostrando a importância de fazer caminho. Flaubert dizia que viajar tornava a pessoa modesta porque passávamos a ver como era pequeno o lugar que ocupamos no mundo. Mark Twain afirmava que a viagem é fatal para o preconceito, a intolerância e a estreiteza de espírito. Já Madame de Stael dizia que viajar era dos prazeres mais tristes da vida. 

Se olharmos para estas afirmações com atenção, ressalvamos a perda em cada uma delas. Aquilo que a viagem nos faz perder. Essencialmente manias. Manias, fixações, caprichos, teimas e obsessões. Temos tendência a viver em todas as certezas. Somos especialistas do quase tudo. Sabemos imenso de coisa nenhuma. Em viagem, perdemos, perdemo-nos no que é certo. Tudo se altera e tudo se envolve. 

Há uns meses, numa bela conversa com o mui estimado Ricardo Santos, editor-chefe da revista Volta ao Mundo, falávamos das ideias pré-concebidas, dos preconceitos de viagem e de como era urgente tudo isso ir à vida numa viagem para que fosse possível dar-se o milagre do reencontro. 

Quando esbarramos num lugar pela primeira vez, permitimo-nos ao espanto. Quando voltamos a esse lugar uma segunda vez, abrimos espaço para a intimidade. O impacto com o desconhecido faz-nos perder o norte. Estamos em constante procura: do belo, dos sabores, dos detalhes. Viajar é assumir riscos e perder os medos quando reconhecemos o inesperado. 

O verdadeiro viajante permite-se e predispõe-se a perder o conforto. Deve despojar-se do essencial. Um dos meus grandes amigos, em jeito de brincadeira, dizia que numa viagem, "comer é um bem supérfluo". Dentro do evidente exagero, conseguimos extrair daqui a importância de largar, de abandonar, de despir as ideias e as frases feitas. Porque faz diferença dormir na estação de comboio umas horas, porque faz diferença ir em terceira classe onde está a maior parte dos passageiros. Porque faz diferença a cama ser um estrado velho e frágil sem lençóis, porque faz diferença apanhar o autocarro nocturno para poupar o dinheiro de uma noite. Porque faz diferença comer por menos de dois euros, de pé, junto à estação ou sentados com os locais. Porque faz diferença não compreender a língua. Porque faz diferença pedir indicações por gestos. Porque faz diferença lavar a roupa na nascente e pendurá-la na árvore. Porque faz diferença perder a paciência. Porque faz diferença perder o autocarro. Porque faz diferença perder o mapa. Porque faz diferença perder. 

Gonçalo Câmara

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