Na ordem da noite

Somos sempre chamados aos assuntos na ordem do dia. Aos temas que marcam a actualidade, às questões que nos atropelam e nos envolvem. A tudo aquilo que chega a alta velocidade e pede atenção. Emissores ansiosos por engagement, mensagens velozes, frenéticas e prontas e receptores distraídos ou sérios, alertas e ligados, activos ou passivos. 

Fica a faltar tudo o que está na ordem da noite. Tudo o que se processa lentamente se impõe perante a rapidez e a pressa, pedindo superação aos condicionalismos associados ao acto de ser e estar sedentos de informação e de estímulos. 

A noite implica introspecção, recato, moderação e resguardo. A noite pressupõe a demora, muitas vezes entendida como meta impossível de alcançar. Primeiro porque nos pede paragem, depois porque implica desvio do foco do dia. E por último, porque nos obriga a olhar para dentro. E olhar para dentro comporta riscos e ameaças. Porque não nos queremos saber, não estamos para isso. Preferimos ruído e assuntos díspares que nos distraiam da existência. 

A noite alinha as prioridades e orienta os sentidos. Como disse e perguntou Virgílio Ferreira: "Uma vida inteira - que amontoado de coisas. Mas quantas coisas nela são coisas de serem?". As respostas estão por dar, mas a noite abre espaço ao discernimento. Destapa a solidão necessária e o pensamento desmedido. Despimo-nos - por fora e por dentro - ficam de lado as máscaras que nos tapam a cara e a fraqueza. A noite importa porque o mar não se cala, a noite é estranha porque transforma. A noite é dura para os vulneráveis e vulnerável para os que dela se servem para olhar o dia. 

Gonçalo Câmara
 

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